No meu tempo de criança, ouvi dizer que em Calcutá, Índia, havia gente que nascia, vivia e morria na rua. Aquela informação me fez pensar que, afinal, nosso Brasil não era tão ruim: aqui, naquele tempo, as pessoas pelo menos tinham um lugar para nascer, viver e morrer. Podiam ser barracos em favelas, palafitas em regiões litorâneas, mas tinham teto.
Isto foi no passado. Hoje, temos também nossos ‘sem teto’, já existe, infelizmente, esta nova Calcutá. E nem é preciso ir a São Paulo, Rio ou a algumas outras grandes cidades do país. Temos por aqui mesmo os nossos ‘sem teto’.
Esta semana, li no jornal carta de uma leitora comentando que havia pessoas dormindo na Concha Acústica mas que alguém as tinha tirado de lá. Acontece que saem uns, chegam outros e alguém continua por lá, como pude ver ante-ontem e ontem. E não apresento este fato para pedir que alguém tire de lá quem transformou nossa Concha em abrigo, mas para destacar esta tragédia real. Porque o problema não é tirar da Concha, ou da calçada diante do jornal (que, durante algum tempo, teve uma inquilina que, de repente, sumiu) pessoas que estão vivendo ali, até fazendo suas necessidades (como destacou a carta da leitora). Tirá-las de lá e colocá-las onde?
Este é o problema do qual não podemos fugir. Reclamar que tem gente dormindo ou vivendo na Concha Acústica não envolve todo o problema. Gente não pode ser posta debaixo do tapete, como lixo na sala. E não podemos pensar em termos de escondê-las, sumir com elas porque sua presença pode nos ofender ou até assustar. O problema é dar-lhes um abrigo, um teto.
Volto a lembrar de Calcutá, aquela complicada cidade indiana em que pessoas, há um tempo imenso, nascem, vivem e morrem nas calçadas. E lembro que, pelo menos nas últimas décadas, Calcutá teve a presença de um anjo que acolhia os desabrigados, atendia os doentes, dava amparo aos desprotegidos, madre Teresa, falecida há quase um ano. Pois é, naquela triste cidade, existia pelo menos alguém para socorrê-los. Nós, por aqui, só temos os desabrigados.

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