Não entendo a estranheza das pessoas que comentam - até com certa revolta - as mudanças nos horários das atividades, hoje, em função do jogo da seleção de futebol, na Copa do Mundo. Isto já se tornou uma coisa quase institucional. Inclusive, não sei se muitos de vocês lembram, jogo da Copa do Mundo chegou até a mudar horário de procissão no Brasil. Aconteceu que uma partida do Brasil iria ser realizada no dia de Corpus Christi (por um dia, não aconteceu de novo este ano) e bem na hora da costumeira procissão.
A procissão de Corpus Christi, vocês sabem, é diferente. Os fiéis enfeitam as ruas por onde o Santíssimo vai passar. É a grande festa da instituição da Eucaristia, momento culminante do catolicismo, principalmente. Os fiéis enfeitavam as ruas pela manhã, a procissão saia à tarde. Daí que havia jogo do Brasil, pelo Mundial. Resultado: a procissão foi antecipada.
Este ano, só mudaram o horário dos bancos e deram um jeito no horário do comércio e da indústria. Mas só porque não houve coincidência de datas. Assim, os fiéis vão poder fazer tranquilamente sua procissão amanhã. E pode ser que muita gente participe agradecendo o resultado da véspera. Ou, então, na pior das hipóteses, pedindo ao time de Zagallo melhoras para as próximas partidas.


Neo-torcedores
Assim como existem os neoliberais, em tempo de Copa tem, sempre, os neo-torcedores, gente que só vê futebol no Mundial. Se as coisas estão bem, se o time da gente, no caso, claro, o Brasil, joga direitinho e ganha, é até divertido. Mas é terrível estar na mesma sala com neo-torcedor se as coisas não estão bem. Junto com o nervosismo do jogo, vêm os comentários impróprios de quem não sabe sequer para quem está torcendo. Fenômeno bem comum quando, como em jogos contra times que usam o amarelo na camisa, os brasileiros estão de azul. O que teve, em 94, de neo-torcedor torcendo pela Suécia nem dá para contar. Mas naquela época as coisas foram bem, nós ganhamos. E agora?
Tem um amigo que descobriu a solução: ele vê jogo sozinho, não quer saber de companhia, de palpite, de nada.
Sós ou acompanhados, a previsão é a de que vamos sofrer, e muito, a partir de hoje. E todos com aquela idéia de um antigo filósofo: tudo é bom, quando acaba bem. Isto é, vai valer se conseguirmos ganhar hoje, nas próximas terças-feiras e depois, nas partidas do mata-mata que afunilam a disputa. Um sofrimento que, esperamos, vá até a final, concluindo com a repetição da alegria de 94.


Superstição
Enfatizam demais a superstição do Zagallo. Sim, ele é, mas e nós? Ora, ora, está assim de gente repetindo tudo o que fez há quatro anos, ‘para dar sorte’. Repetindo a roupa, o lugar em que viu os jogos, o que comeu, tudo o que pode fazer.
Somos todos supersticiosos, faz parte da nossa natureza. Em 58, quando o Brasil tentava, pela primeira vez, sua Copa, briguei com minha irmã porque mudei o rádio de lugar (ficava na cozinha, eu o levei para a sala). Ela disse: ‘Dá azar’. Eu disse: ‘Não enche’. A Suécia foi lá e, pimba, fez 1 x 0. Minha irmã disse: ‘Não falei?’ A vontade foi responder com uma bolacha. Mas já era medo suficiente a derrota parcial. Sabem o que fiz? Recoloquei o rádio na cozinha. E nós ganhamos, fomos campeões mundiais pela primeira vez.
Claro, naquele tempo a gente tinha Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, até um grande goleiro, Gilmar. Mas se fosse ouvir as partidas da Copa pelo rádio, garanto, eu ouviria na cozinha.
Como, porém, agora a gente vê pela televisão, já andei buscando na memória as lembranças para repetir tudo o que foi feito na última Copa. Que não seja por minha culpa que o Brasil vá mal nesta verdadeira guerra pelo orgulho nacional que é a Copa do Mundo.


Não esqueçam do dia 12

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