Depois de 27 anos na ‘Folha’, o fotógrafo Jota Pedro (cujo nome é José Pedro de Lima) resolve, corajosamente, buscar novos rumos para sua vida e sua arte. O êxito na profissão - que surgiu em sua vida de modo até inesperado - foi grande. O menino pobre que começou vendendo jornais aos 15 anos chega hoje aos 43 com uma bagagem impressionante de prêmios e reconhecimento.
Atingiu, na ‘Folha’, o ponto máximo que um profissional da área poderia almejar: era o editor de fotografia do jornal. Como fotógrafo ganhou muitos prêmios, o Paraná de Jornalismo, duas vezes o Wladimir Herzog de Direitos Humanos, também da Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina. Suas fotos já foram publicadas em jornais e revistas de todo o País.
Agora, chegou o momento de mudar de rumo - sem, claro, deixar a fotografia. J. Pedro acaba de abrir um estabelecimento, o Photo Press, na rua Souza Naves, 182, no centro, um ponto bem situado. Lá, no momento, com equipamento de última geração, montou um laboratório para revelar, em uma hora, filmes coloridos de todos os tamanhos. E, naturalmente, pretende continuar a trabalhar na profissão que tem, como free lancer.
No próximo ano, pensa em criar uma equipe para fazer álbuns de eventos como casamentos, batizados, formaturas, com a qualidade que desenvolveu ao longo dos anos.Carreira
Para mim, José Pedro é mais que um antigo companheiro de trabalho no jornal. Ele foi um entre centenas de garotos pobres que procuravam trabalho aqui e que começavam vendendo jornais. Com 15 anos, ele veio pedir uma vaga de vendedor. E logo se destacou pela vontade, educação, disposição.
Em pouco tempo, tornou-se entregador, o que era um avanço. A partir daí, era funcionário da ‘Folha’, com registro em carteira. Um dia, como acontecia sempre, pediram que designássemos (eu e o Alexandre Rocha Filho, o Mineiro, responsáveis na época pela circulação) um garoto para trabalhar no laboratório fotográfico do jornal. Iria limpar, cuidar e aprender. Escolhemos o Zé Pedro exatamente por tudo o que mostrara até então de vontade e disposição para o trabalho.
Durante dois anos, ele foi entregador de madrugada e aprendiz durante o dia. Ia entregar os jornais com uma máquina fotográfica no pescoço. Foi assim que teve sua primeira foto publicada: um acidente, de madrugada, que ele viu porque estava entregando jornais.
Daí para a frente, nunca mais deixou de fotografar e de progredir na carreira. Acabou deixando, naturalmente, a entrega de jornais, foi conquistando espaços, renome e respeito por um quarto de século.Exemplo
Como o José Pedro, pude acompanhar o crescimento e a evolução de muitos garotos, neste tempo todo que estou aqui. Meninos pobres que precisavam trabalhar desde cedo e que enfrentavam o desafio com muita coragem e vontade.
Centenas passaram pela Circulação naqueles tempos em que éramos responsáveis pelo setor. Alguns fizeram carreira aqui mesmo no jornal, como o José Pedro. Outros seguiram diferentes caminhos mas a maioria encontrou caminhos positivos em suas vidas. Muitas vezes alguns deles me param na rua para contar que foram vendedores de jornal e para dizer que aquele começo deu-lhes a base.
Quando a gente vê um garoto trabalhando corre o risco de pensar que ele não tem futuro. Mas tem. Em alguns casos, esta necessidade de trabalhar produz até mais responsabilidade e coragem. Quando vejo muitos de meus antigos ‘meninos’, como o J. Pedro, progredindo na vida, conquistando espaços, superando obstáculos, percebo que o fundamental mesmo é a vontade, a coragem de enfrentar os obstáculos. Os meninos pobres que vendem jornais, refrigerantes, que trabalham em escritórios e oficinas podem atingir uma vida melhor. Todos podemos. O importante, penso, é lutar. Sempre.

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