Praça Londrina
Estelio Feldman


Milton DóriaBelezaA rua Sergipe, mostrando sempre a beleza e o potencial dos velhos tempos
Rua Sergipe
Naquele tempo, não tão distante mas pouco lembrado, quando as pessoas vinham para cá de todas as partes, tentando a sorte, havia uma brincadeirinha: dizia-se que muita gente começava em Londrina pelo alto da rua Sergipe e acabava lá embaixo, na mesma Sergipe. A idéia era simples: no alto da Sergipe, estava o Londrina Country Clube, clube da elite. Lá embaixo, no começo da rua, estavam a delegacia e a cadeia. Os aventureiros - não todos, mas muitos - chegavam e, aproveitando-se da hospitalidade e do carinho com que todos os que vinham eram tratados, conseguiam enganar, iludir, ser recebidos com todas as honras, o que significava o Country. Daí, depois, revelavam o que eram e acabavam lá embaixo, na cadeia. Dois extremos a marcar uma artéria que tem uma longa e bela história.
Uma rua longa e que, por muito tempo, disputou com a avenida Paraná, paralela a ela e marcando o centro da Cidade, como centro comercial movimentado e confiável. Lojas, bares, bazares faziam parte de seu panorama, completado pela linda Rodoviária, obra de Villanueva Artigas, o arquiteto que deixou por aqui também suas marcas, e que tinha nas grandes casas da parte alta seu complemento natural. Andar pela Sergipe era um passeio agradável, marcado, no passado, por uma presença muito forte da tão querida colônia nipônica.Paiquerê
O primeiro endereço da Rádio Paiquerê foi exatamente a rua Sergipe. Sebastião Pessoa, que veio de Ribeirão Preto para cá a fim de instalar a nova emissora (que viria a ser a terceira da cidade e que, creio que até hoje, se tornou a primeira na simpatia da população), conseguiu um local ali, na Sergipe, a dois quarteirões da cadeia. A rádio funcionava em cima da Alfaiataria Dutra, em frente do Bar Colúmbia, um lugar não muito bem conceituado, mas cercada também por algumas residências.
Mas se naquele trecho que começava a partir da Mato Grosso para baixo o local não era muito bem considerado, já acima da Mato Grosso as coisas mudavam radicalmente. Havia um bar na esquina, hoje uma pastelaria (onde se encontra um dos melhores pastéis desta cidade) e pouco mais à frente outro barzinho, limpo, agradável e atraente, um dos pontos do pessoal da rádio, durante o dia, quando nos deliciávamos com salgadinhos e sodinha. A fama que radialista tinha então de ser bom de copo não era injusta, mas cervejas e similares eram comuns só à noite, quando a Sergipe, como rua comportada de comércio respeitável, dormia. Aquele trecho, da Mato Grosso até a Rio de Janeiro, cheio de lojas, com características típicas, dava à Sergipe um ar diferente.Os japoneses
Atualmente, parece, é politicamente incorreto falar assim. Mas naquela época, a gente dizia que a rua Sergipe era a rua dos japoneses. Isso sem qualquer outro sentido que o de confirmar que a maioria dos estabelecimentos comerciais existentes ali pertencia a pessoas de origem nipônica. E se dizia isso não apenas com respeito, mas com a franca admiração que os imigrantes japoneses e seus descendentes conquistaram graças ao trabalho, dedicação, coragem e esforço.
Era interessante passar pela Sergipe, naquela época, na parte comercial, vendo a multiplicidade de um comércio movimentado e muito ativo, com aquela participação plena da comunidade nipônica. Mas havia, também, comerciantes de outras origens. A Sergipe era, como quase toda a cidade, o espelho relativo à soma das gentes, brasileiros de todos os estados, estrangeiros de muitos países, que formavam esta realidade que é a nossa Londrina.
E, como um corolário natural a esta soma, era até lógico que funcionasse ali a nossa Rodoviária, que foi ficando pequena para tanto movimento mas que permanece agora, não só como um museu, mas como um símbolo vivo de nossa História. Quantos milhares de londrinenses, da segunda ou terceira geração de pioneiros, chegaram à cidade por aquela Rodoviária...Hora de ressurgir
No ano passado, enquanto toda a cidade parecia brilhar com as luzes do Natal, a rua Sergipe estava quase apagada. Várias vezes passei por lá, sentindo muita tristeza diante daquilo. Onde estava o espírito da rua que em certa época foi considerada uma das mais movimentadas da cidade? Dizer que o Calçadão central atrapalhou, que a concorrência dos shoppings dificultou é, apenas, parte da questão. Penso que o que faltou foi mesmo um pouco mais de disposição no sentido de resgatar e restabelecer o espírito que não morre.
Espero que neste ano a situação seja diferente, que a rua Sergipe brilhe tanto quanto as outras, restaurando seu carisma, voltando a ser aquela artéria fervilhante e, principalmente, acolhedora. O anunciado esforço de revitalização do centro, que visa propiciar melhores condições para o comércio da área, tem que atingir, também, sem dúvida, a rua Sergipe. Penso que isto é fundamental e não só em termos históricos ou emocionais, mas como um imperativo para que Londrina restaure seu próprio espírito. A letargia dos tempos difíceis já durou tempo demais, é hora de a rua Sergipe ressurgir e voltar a ser a artéria vibrante e movimentada que foi, marcando a vida de muitos de nós. Tenho plena convicção que os comerciantes da área não vão fugir a este desafio para restaurar o brilho da nossa rua Sergipe.

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