Praça Londrina (Estelio Feldman)
As cenas vistas durante esta semana, em seguida ao anúncio do aumento nos preços dos combustíveis - e do gás de cozinha - trouxeram de volta um passado não muito distante. Parecia de novo aquela época em que o Governo anunciava aumentos sucessivos nos preços da gasolina, do álcool, do diesel e do GLP e as pessoas corriam como loucas para os postos a fim de abastecer antes da entrada em vigor do aumento.
Ao mesmo tempo, os postos eram fechados, todos querendo levar vantagem, aquela correria doida que não chegava a parte alguma, apenas uma repetição cansativa que levava todos nós a um poço cada vez mais profundo.
Agora, porém, há uma outra realidade. E se é certo que a gente espera (e deseja ardentemente) que esta alta, mais a que vai ocorrer em função do aumento no imposto de importação já anunciado, não sinalize para a volta aos velhos tempos, há um fator muito mais complicado: hoje, com a estabilização, um aumento que parece pequeno porcentualmente é muito mais pesado do que no passado.
O que se ganha muda pouco (e em alguns casos, como o do funcionalismo federal, nem muda) de tal modo que a gente tem de gastar mais, inclusive porque tudo acaba subindo, num efeito cascata. Quer dizer, o reajuste de agora pesa mais do que o da época da inflação exacerbada.Reeducação
Creio que ainda estamos longe de completar o processo de reeducação necessário à mudança provocada pela estabilização. Entramos nesta nova fase da vida econômica com os velhos vícios. E vício, vocês sabem, são difíceis de vencer.
Os primeiros tempos da estabilização foram bem indicativos desta falta de educação coletiva. Como os preços, de repente, pararam de subir, nós começamos a gastar. Os preços mais estáveis pareciam um sonho, ainda mais porque a gente tinha na cabeça a memória dos reajustes salariais que, naquele tempo, eram mensais. Foi um duro despertar a percepção de que, assim como os preços, o nosso ganho também havia estacionado. E muita gente, que não percebeu que precisava mudar a cabeça, se reeducar economicamente, acabou afundada em dívidas, descobrindo do modo mais duro o significado da palavra inadimplente.
Nestes poucos anos aprendemos alguma coisa, sem dúvida. Mas não tudo. As pessoas correndo para abastecer carros, antes da alta, mostram que continuamos com a mesma mentalidade do passado, em muitos casos. Mas a gente já sabe que este tipo de economia não resolve. Que é preciso buscar soluções novas, usar, como disse FHC, a criatividade.Solidão
Não conheço nenhuma estatística a respeito, acho que a Alvorada ainda não fez este tipo de trabalho, mas pelo simples olhômetro, que é ficar parado numa esquina, olhando os carros que passam, dá para perceber: a maioria das pessoas anda sozinha, no carro. Quer dizer: um carro por pessoa. E, nesta cidade em que há carros suficientes para todas as pessoas que aqui moram, isto significa um movimento imenso.
Façam isto: olhem nos longos congestionamentos e vão ver pessoas solitárias em seus carros. Alguns enormes. Carro com duas pessoas é incomum, com 3 ou 4 é raridade. É uma solidão motorizada, que muitos tentam superar colocando muito som no veículo. Só que isto não substitui a presença humana - só destaca a solidão.
Em São Paulo, em um esforço para tentar mudar isto, foram criadas faixas da solidariedade em algumas vias: são faixas em que os carros só podem transitar se tiverem pelo menos duas pessoas a bordo. É uma tentativa de estimular o uso comunitário, o que diminuiria o volume de veículos em trânsito. Mas isto tem um outro efeito: economia. As pessoas que correram para abastecer os carros raramente pensam que se tentassem o tipo de transporte solidário fariam economia, o que é vital para a estabilização.Um sonho possível





