No dia em que o cientista Albert Sabin morreu, eu era editor internacional. Fui procurar fotos dele para ilustrar a matéria. No local estava o fotógrafo Milton Dória. Eu disse: se existe céu, este Sabin está lá. Milton concordou dizendo que a vacina que Sabin proporcionou à humanidade foi um dos maiores benefícios que os seres humanos tiveram no século. E comentou: pena que eu nasci algum tempo antes.
Verdade. O amigo Milton Dória teve poliomielite com 9 meses. Ainda não havia vacina. Sofreu ele, sofreu a família. Hoje, Milton enfrenta a sequela da doença com a coragem que caracteriza os verdadeiros seres humanos que lutam sem fazer alarde e que fazem da vida algo que vale a pena.
Assim como Milton, milhares, milhões sofreram com a pólio antes que surgisse a vacina. Sabin não foi o primeiro: antes da vacina dele, surgiu a vacina criada pelo cientista Jonas Salk. A vacina de Salk era pouco diferente mas também eficaz. Ocorre que a de Sabin, além de tudo, é mais fácil de ser aplicada: são as gotinhas que salvam - ao contrário da outra, que é injetável.
Sabin e Salk deram ao mundo uma contribuição que merece figurar naquele panteão dos seres que não só passaram pelo mundo mas deixaram marcas fantásticas de sua passagem.Vacinação
Falei de Sabin - e lembrei Salk, também - por causa da vacinação de ontem. O Brasil foi um dos países que assumiram com empenho a tarefa de erradicar a pólio. O trabalho que se fez ao longo dos anos foi marcante. Se hoje se pode dizer que a pólio está erradicada, isto se deve ao fato de que, pelo menos em relação a isto, houve vontade e competência por parte das autoridades.
Acontece porém que não se pode pensar que a doença está vencida. É preciso que se mantenha o trabalho, que continue a prevenção, que as crianças sejam vacinadas com a periodicidade necessária. Em Londrina as campanhas de vacinação têm obtido, normalmente, um excelente índice. Mas vou dizer: índice excelente ainda não é o ideal. Entendo que, no caso, o que se busca é o total.
Sabe-se que a vacina Sabin, além de ser mais fácil de ser aplicada, tem outro importante efeito: o fator de inibição da doença se espalha, o que significa que, se 90% da população estiver vacinada, o restante também pode se beneficiar. Entretanto, não há por que aceitar que alguma criança fique sem vacina. As autoridades fazem o que é preciso. As campanhas ganham, também, apoio da coletividade, com voluntários se dispondo a trabalhar para garantir a imunização de todos. Ora, o mínimo que pais ou responsáveis devem fazer é levar os filhos à vacinação.Inaceitável
A gente sabe que nesta vida tudo pode acontecer. Para morrer basta estar vivo, como diziam os antigos. Todavia, entendo que a obrigação de cada um é a de tentar se prevenir. Em relação a doenças, em especial as que afetam crianças, é inaceitável que alguma adoeça, sofra efeitos posteriores ou mesmo morra vítima de algum tipo de mal que pode ser prevenido pela vacinação.
Esta teoria se fortalece mais diante da nossa realidade: somos um país pobre, existem muitos doentes, os remédios são caros, é difícil mesmo garantir assistência às pessoas. Mas, no caso da vacinação, os governos (federal, estaduais e municipais) de fato estão se esforçando. A vacina é de graça, pelo menos a tríplice, a contra a pólio e até algumas outras. Há campanhas, como esta que se desenvolveu ontem, em que multidões se mobilizam com um único objetivo: imunizar toda a população infantil. Logo, a parte que resta é a dos pais, dos responsáveis, de levar as crianças para receber a dose, para tomar a ‘gotinha que salva’.
Não se pode ser fatalista em relação a isto. No passado, inclusive quando eu era criança, a gente tinha de contar com a sorte: qualquer um podia contrair pólio. Tive amigos que contraíram a doença. Perdi amigos por causa dela. Mas, hoje, não é preciso acontecer isto. E se uma criança ficar doente por não ter sido vacinada, isto é crime, no mínimo, de omissão.O verdadeiro monumento

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