Praça Londrina
Estelio Feldman

Arquivo FolhaNa moscaA Feira da Lua: idéia nova com um nome romântico e apropriadoNomes e apelidos
Nome é, para as pessoas (e até para animais ou coisas), uma questão séria. É a identidade. Há povos, inclusive, que seguem tradições em relação aos nomes. Os judeus - pelo menos os de origem européia - costumam dar aos filhos o nome de parentes mortos. Há também os que costumam criar nomes (usando, entre outros, parte do nome do pai e da mãe para nomear o filho, o que dá, não raro, algumas combinações incrÍveis), os que simplificam, dando ao rebento seu próprio nome, enfim, há mÚltiplas formas para a escolha. Curioso é que, depois de tudo isto, um bocado de gente acaba sendo conhecida por um apelido qualquer.
Lembro de um episódio a respeito: estávamos em uma colônia de férias, numa fazenda. Chegou ali a mãe de um dos meus amigos. E ela não conseguia encontrar o filho. Falava com um, com outro, ninguém sabia quem era o tal de ‘Enio’ que a senhora procurava. Já chegando ao desespero, ela lembrou: ‘Ah, os amigos chamam ele de Caveira’. Não deu outra, encontraram o sujeito na hora.
Aqui na ‘Folha’, mesmo, o sr. João Milanez foi interpelado sobre um funcionário, Alexandre Rocha Filho. Não sabia quem era. Ficou surpreso quando informaram que era o Mineiro, um jovem que estava há anos no jornal. Aqui, aliás, nos velhos tempos, a maioria era conhecida pelo apelido. Tinha o Leitão, o Zapata, o Búgio, o Nenê (que, atualmente aposentado, continua a ser Nenê), o Toco, o Jaraguá e toda uma família de Mineiros.Piadas
Acredito que a maioria sabe, mas se não sabe ou não lembra, vai ficar sabendo agora: em castelhano, nome e apelido (que se escreve apellido, se não falhar a memória, já que aprendi isto há algumas décadas) têm significado diverso do que em português. Nome, para eles, é o que nós chamamos de sobrenome, seria o nome de família. E apellido é o que, entre nós, é o nome.
Isto, naturalmente, gerou uma série de piadas e brincadeiras. Há uma que é atribuída a jogadores de futebol que viajam muito e que, em muitos casos, não têm exatamente grande conhecimento linguístico. Como é uma história que se repete há anos, dependendo de quem a conhece o personagem é um. Quanto a mim, aprendi que aconteceu com o fantástico, querido e simples Garrincha, aquele que foi um dos maiores gênios que a bola conheceu.
Assim, se contava que, quando chegou a um hotel, em um país de fala espanhola, o atleta deparou com a ficha e a preencheu. No lugar em que estava escrito ‘nome’, ele colocou, naturalmente, Manoel. E onde estava escrito ‘apellido’ ele lascou, naturalmente, Garrincha.
Não sei se aconteceu com ele ou com outro. No passado, mais que agora, nossos jogadores raramente eram conhecidos pelo nome de batismo. Os apelidos eram comuns. Havia os simples, como Zezé, Didi, Vavá, os complicados como Ponce de Leon, Pé de Valsa, os que lembravam características, como Canhoteiro. Coisas
Naturalmente, as coisas também recebem nomes. Especialmente coisas públicas, praças, monumentos, estádios, ginásios de esporte. É necessário. Você não vai anunciar uma solenidade ‘naquela praça que fica perto da rua tal’. Melhor dizer o nome.
Mas o povo acaba dando nomes, muitas vezes antes dos governantes, e na maior parte delas com maior sabedoria. Mesmo aqui na Redação, encontrei poucas pessoas que sabiam onde ficava o Estádio Cícero Pompeu de Toledo. Também poucos disseram conhecer o Estádio Mário Filho ou o Paulo Machado de Carvalho, ou mesmo o Estádio Magalhães Pinto. Mas todo mundo sabe onde fica o Morumbi (que é o apelido do ‘Cícero Pompeu de Toledo’) ou o Maracanã (Mário Filho) ou o Pacaembu (Paulo Machado de Carvalho) ou o Mineirão (Magalhães Pinto). Em relação ao Maracanã, o único cronista que sempre o chamava de Mário Filho era Nelson Rodrigues. Mas isto se explica: Nelson era irmão de Mário, um grande cronista esportivo do Rio.
E alguém pode sequer imaginar algum outro nome para o ginásio de esportes de Londrina que não ‘Moringão’? Há quem não conheça sequer a origem do nome, mas a verdade é que ‘Moringão’ foi criado e ‘Moringão’ ficou. E quanto ao Zerão ou ao Zerinho? Será que algum nome oficial que possa vir a ser escolhido poderá ser incorporado e aceito, ainda que a homenagem eventual se faça a algum grande vulto? Duvido. A Feira da Lua
Não sei se foi o povo ou se foi a administração municipal que a criou ou se foram ambos. O que sei é que quando se lançou a feira no período noturno, o nome que naturalmente surgiu foi este: Feira da Lua. E seja de quem tenha sido a idéia, é inegável que foi inteligente, criativa, poética até.
Como a feira noturna acabou agradando mesmo, convertendo-se até em um dos grandes atrativos para muita gente durante a semana, e como o nome caiu como uma luva, ficou perfeito. Mas, de repente, por causa de algumas modificações ou aumentos - no caso mais barracas com alimentos de diferentes países - alguém resolveu mudar o nome para ‘Feira das Nações’. Tem quem diga - mas eu não acredito - que a mudança é porque a Feira da Lua surgiu na administração passada. Não creio mesmo que a atual administração possa ter tido um tal tipo de preocupação.
Penso que a tentativa de mudar decorre de outra idéia, talvez a intenção de se criar algo diferente. Mas, de qualquer modo, me parece descabido. Ademais, ‘Feira das Nações’ já existe, é (ou era) promoção de colégio, até meu filho já participou de várias edições.
Não nego que com as novas barracas - pelo menos na feira que fica, ainda, em frente ao Moringão - há uma característica nova ali. Mas a idéia da feira persiste, inclusive com tudo o que uma feira-livre oferece. E como, afinal, o nome antigo é tão belo e já está incorporado à vida popular, para que mudar?

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