Praça Londrina (Estelio Feldman)
Praça Londrina
Estelio Feldman
Ivo AkioSempre criança
Hoje, 12 de outubro (que deveria ser feriado mas não é porque é domingo) é - ou deveria ser - o dia de todos nós. Pois somos todos crianças, carentes, ignorantes, confiantes. Vem a mãe e diz: criança é bom, mas, pena, elas crescem. E eu contesto: acho que aquela mãe não queria uma criança, queria uma boneca.
Sim, as crianças crescem o que, como diziam os antigos, cria mais problemas: filho criado, trabalho dobrado, é o que afirmavam as contemporâneas de minha avó. Todavia, também crescem as alegrias.
Talvez vocês digam que estou fazendo confusão entre criança e filho. Mas é que realmente uma coisa e outra estão ligadas. Para os pais, filhos são sempre crianças. Sei de gente que dá presente para filho de 20, 25 anos, no Dia da Criança com a maior tranquilidade. Quer dizer, acho que, em tais termos, a gente só deixa de ser criança quando fica órfão.
Entretanto, em termos um pouco mais amplos, como assinalei acima, jamais deixamos de ser crianças diante do Pai que nos criou. Jesus, inclusive, ao falar a respeito, foi claro ao dizer que o reino dos Céus é para as crianças. E nos convidou a sermos sempre, no coração, como crianças.
Não é uma fuga. É uma questão até simples: adultos que conseguem manter a alma de criança, que não esquecem que já foram crianças, dos anseios e medos daquela época, são melhores pais e, até, seres humanos mais completos.Criança carente
Nos tempos que correm, quando se fala em criança, o pensamento vai naturalmente para aquelas que nos cercam nas ruas, nas esquinas, pedindo um trocado. Ou para as que vemos por aí, cheirando cola, dormindo nas calçadas. E, na verdade, não queremos vê-las. Reclamamos das autoridades que precisam dar um jeito. E o jeito que a gente quer, claro, é que elas, carentes, pobres, mal vestidas, não sejam vistas. Só que isto não resolve nem o problema delas, nem o nosso.
Tem gente que, até um pouco hereticamente, diz que o problema é que fazer filho é fácil. É mesmo. E, de qualquer modo, como vivemos em sociedade, como todos estamos unidos, queiramos ou não, o certo é que a situação das crianças carentes, abandonadas, daquelas que chamamos futuros marginais, constitui uma questão que deveria nos envolver a todos. E que reclama uma posição mais concreta diante delas. Não paternalista, não também radical. É preciso ver aquelas crianças como são: seres humanos em formação que merecem oportunidade e que não são culpados por sua própria situação. São apenas vítimas.
Neste dia, dedicado às crianças, pensar na situação daquelas que não terão presente, e que em muitos casos não têm sequer futuro, é importante e necessário. Somos todos, sem dúvida, responsáveis por elas, como membros desta confraria chamada humanidade.Criança feliz
Penso que a expressão criança feliz deveria ser pleonasmo, aquele vício de linguagem em que se repetem coisas iguais. Pois a infância é uma época de descobertas, de encontros, de aprendizado, de alegria. Mas não é bem assim, e todos o sabemos. Mesmo, há até quem diga que o aprendizado, de modo geral, é por si doloroso. Assim, na medida em que a criança aprende vai, também, ficando cada vez mais infeliz.
Todavia não devia ser assim. Ademais, dizer que quando a gente começa a aprender vai se tornando menos feliz é um modo de louvar a ignorância. O que é uma bobagem. O ignorante, dizem, é feliz, porque não sabe das coisas. Quando começa a saber, fica infeliz. Ora, o ignorante não é feliz, é ignorante. E pode ser tanto mais feliz quanto mais viva. Porque a vida, como um todo, é uma lição e na medida em que aprendemos nesta escola temos melhores condições de perceber a beleza que é a existência.
Creio que o grande desafio é justamente este, o de tornar feliz a infância. Não sendo necessário para isto sair dando presentes neste dia. O que é preciso é permitir que as crianças sejam crianças, dar-lhes apoio, carinho, compreensão, amor. Coisas que não custam nada. Infelizmente, porém, tem gente que encontra mais facilidade em dar coisas do que em dar-se. E coisas, muitas vezes, não fazem uma criança feliz. Nem um adulto, nem ninguém.Um sonho do Dia da Criança
Nós, adultos, somos o resultado da criança que fomos. Esta é uma realidade tão clara que não é preciso ser um psicólogo para entendê-la. Curiosa é a mente das crianças. Quando eu era muito jovem, pensava que meus avós haviam sempre sido avós! Para mim, todo avô se chamava Simão, toda avó se chamava Clara. Até mesmo pensava, nos meus 3 anos, que meus pais também nasceram pais.
Aí descobri que meus avós, como meus pais, como todos os adultos do mundo, também haviam sido crianças. E descobri, ainda, no maravilhoso aprendizado que é a vida, que a criança que cada um deles foi moldou o pai, a mãe, o avô, a avó em que se converteram. Aprendi, também, que a melhor coisa que há neste crescimento é jamais esquecer precisamente isto, que um dia fui criança. E tentar manter, mesmo aos quase 60, a mente viva e aberta das crianças.
Se o adulto reflete a criança que foi, salta aos olhos que, para termos adultos capazes, é preciso investir nas crianças. O grande sonho de um Dia das Crianças é, precisamente, este: que as crianças recebam de nós condições para serem adultos felizes, realizadores, realizados!
E para que este sonho se torne mais possível, penso que seria bom lembrar que hoje é, também, dia de Nossa Senhora. E, então, lembrando da doce Maria, pedir que olhe pelas nossas crianças e nos ajude a cumprir nossa missão que é a de abrir a elas um mundo melhor.





