Praça Londrina
Estelio Feldman

Um dia sem carros
Londrina, vocês sabem, é uma das cidades do Brasil com maior volume de carros por habitante. Meio brincando, meio seriamente, diz-se que se todos os londrinenses ocupassem os veículos existentes, ia sobrar carro. E a gente nem precisa buscar estatísticas para confirmar isto. É só circular pela Cidade. Há dias - quando chove ou ameaça chover, por exemplo - que as ruas ficam entupidas. Não dá para circular. Parece que as pessoas não sabem mais viver sobre dois pés, precisam é de rodas.
Pois é, isto traz uma tonelada de problemas, de vários tipos. Provoca, também, acidentes sem conta, perdas terríveis e irreparáveis de vidas, prejuízos e dor. Mas, fazer o quê, vocês podem perguntar.
A pequena e histórica cidade francesa de La Rochelle (quem leu Os Três Mosqueteiros já ouviu falar dela) fez, há algum tempo, uma curiosa experiência: um dia sem carros. Claro, é uma cidade pequena, tem cerca de 90 mil habitantes, fica mais fácil fazer isto. Mas vejam: diariamente 30 mil veículos circulam pelo centro daquela cidade. Em relação ao total de habitantes, é um número elevado. Um pandemônio. Daí que o prefeito resolveu colocar todos os carros ‘‘fora da lei’’.
O resultado foi um dia surrealista, sem barulho. Logo de manhã, as pessoas saíam de casa surpresas, erguiam o nariz, respiravam o ar e tinham a cara de quem se pergunta se está no mundo real ou dentro de um sonho.Dificuldades
Mesmo para uma cidade pequena, um dia sem carros exigiu uma longa preparação. Primeira decisão: todo mundo que entrasse na cidade tinha de deixar seus carros nos estacionamentos periféricos. Ali, eram-lhes oferecidas bicicletas gratuitas, motocicletas elétricas, carros elétricos gratuitos, aos quais foram acrescentados duas vezes mais ônibus do que o normal e uma quantidade enorme de táxis elétricos.
A prefeitura determinou o empréstimo de patins para os jovens que tivessem de ir à escola (sim, porque a experiência não se fez num domingo, o que talvez fosse um pouco mais fácil). Organizou-se também um outro tipo de meio de transporte, um tanto esnobe mas não poluente: carruagens puxadas por cavalos.
La Rochelle recuou alguns anos para o passado e encheu-se de bicicletas que corriam para todo lado, como flechas, de bailarinos no alto de seus patins, e do cheiro de esterco de cavalo que vinha misturar-se ao do pão fresco, recém-saído do forno, formando um odor deliciosamente antigo.
E um silêncio incrível. Esse imenso silêncio deixava as pessoas desnorteadas. Ficavam se perguntando onde tinham ido parar a metralha dos motores a explosão, os freios rangendo. E o ar, então?
Estava puro, o ambiente parecia até um pouco azul como uma flor, sem o fedor da gasolina. Ruas mais calmas, pessoas mais tranquilas. A cidade de La Rochelle parecia viver em um conto de fadas.Objetivo
Mas o objetivo daquele dia não foi o de perfumar La Rochelle, ou de estabelecer um pouco menos de barulho. O que as autoridades pretenderam era demonstrar que, com imaginação e boa vontade, pode-se colocar um freio no aumento ininterrupto da poluição. Fizeram a análise do ar: os níveis de dióxido de azoto e monóxido de carbono situaram-se em torno de 30 microgramas por metro cúbico, contra os 80 a 90 normais. Além disso, o nível de ruído caiu em 75%.
Experiência bem-sucedida. Mas não se deve exagerar o seu alcance: ela durou um só dia e custou muito caro à Prefeitura: 100 mil reais, pelo menos. Além disso, se a população se prestou à experiência de boa vontade, e até mesmo achando-a divertida, foi justamente porque ela durou tão pouco. Se o carro fosse definitivamente posto fora da lei, os comerciantes e seus empregados não demorariam a se queixar.
Em todo caso, o governo e a administração de muitas outras cidades seguiram esse teste com bastante curiosidade. A verdade é que já se tentou tudo para abaixar o nível da poluição produzida pelos automóveis e, até agora, não se conseguiu nada. Muita gente entende, portanto, que diante dessa praga só as soluções drásticas poderiam obter bons resultados. Deve-se esperar que, nos próximos meses, outras cidades também se lancem na luta contra este aparentemente novo flagelo da civilização, o automóvel.Aqui será possível?
Não creio que seja possível fazer isto aqui, em Londrina, nem mesmo num domingo. Uma cidade com 400 mil habitantes, extensa, talvez não possa passar sem carros nem por um dia. Depois, falta uma estrutura de transporte coletivo urbano que possa compensar, seria difícil encontrar tantas bicicletas (e tem gente que não sabe andar nelas), nós não temos carruagens - quando muito, algumas carroças que a gente vê circulando no meio dos carros - e penso que nos falta até um certo tipo de senso comunitário para enfrentar este tipo de desafio.
O que me chamou a atenção, porém, é justamente esta questão da cada vez maior dependência que temos de veículos, da falta de espaço que se dá aos pedestres, e, principalmente, de uma despreocupação com o problema do trânsito em geral. Aceitamos todo este inferno em que o trânsito local se transformou com um fatalismo que é no mínimo pernicioso.
Não podemos, talvez, deixar a Cidade livre de carros por um dia. Mas entendo que temos de pensar, globalmente, no que está acontecendo em Londrina, com carros demais, acidentes demais, mortes demais! Isto sem falar da poluição ambiental e sonora.
Um dia sem carros pode ser impensável, embora a idéia possa parecer fantasticamente divertida. Entretanto, criar mais espaços para os pedestres, creio que isto é possivel, desejável e profundamente importante.

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