Praça Londrina (Estélio Feldman)
Arquivo FolhaEncontro históricoGetúlio Vargas com o presidente norte-americano Roosevelt em 43Penso que por causa da rima fácil é que, desde criança, ouvi dizer que agosto é o mês do desgosto. Discordo totalmente, até porque minha irmã mais velha é de agosto.
Ainda assim, alguns acontecimentos trágicos, na vida política brasileira, acabaram por dar, pelo menos durante alguns anos, uma triste notoriedade a agosto. O suicídio do então presidente Getúlio Vargas, dia 24, em 1954, e a renúncia do então presidente Jânio Quadros, dia 25, em 1961, ajudaram a reforçar esta mística.
Em verdade, acontecimentos gloriosos e também lamentáveis ocorrem em qualquer tempo. Não falam muito de novembro, por exemplo, mas alguns eventos particularmente trágicos ocorreram naquele mês, entre os quais a Intentona Comunista de 35, a tentativa de golpe de 55 - destinada a impedir a posse, no ano seguinte, do presidente eleito Juscelino Kubitschek -, além de outros eventos.
Mas a gente não pode brigar com certas idéias. Simplesmente, se fez de agosto um mês de azar - também era chamado, no meu tempo de criança, o mês do cachorro louco - e por muitos anos foi difícil superar o trauma. De qualquer forma, rememorar os eventos de agosto de 54 e 61 serve para ajudar a lembrar um pouco de nossa História recente. Infelizmente, não somos bons em lembrar os fatos que marcaram a vida nacional, o que, por vezes, pode ter consequências ruins. Como dizem os historiadores, quem não lembra dos erros do passado, corre o risco de repeti-los.1954
Sem dúvida, agosto de 1954 foi dos mais duros e assustadores na vida brasileira. A oposição, que vinha se fomentando a Getúlio Vargas, eleito presidente em um retorno inacreditável, depois de ter sido deposto em 45, após 15 anos no poder, atingiu o auge naquele mês.
O então jornalista Carlos Lacerda verdadeiramente comandava a batalha contra Getúlio de tal modo que a chamada guarda pessoal do presidente resolveu adotar a solução final: matar Lacerda. Mas o jornalista tinha proteção, inclusive de setores das Forças Armadas. Na madrugada de 5 de agosto, tentaram matar Lacerda. Ele, porém, apenas foi ferido. O major Vaz morreu.
E se desencadeou ali a tragédia que levaria ao suicídio do presidente Getúlio Vargas, no dia 24. A descoberta da ligação da guarda pessoal de Getúlio, notadamente de seu mais fiel guardião, Gregório Fortunato, com o atentado que vitimou o major Vaz foi a gota dágua. Cercado, pressionado pela fúria de uma oposição que, sem dúvida, ainda guardava mágoas da época ditatorial, o ex-ditador percebeu que poderia ser vilipendiado pelos seus inimigos, se cedesse. Então, frustrou a todos, cometendo o suicídio, epílogo inesperado e que alterou até os próprios caminhos da História. Outra vez, Getúlio Vargas saiu vitorioso ante a fúria dos que o tentavam destruir. Como ele mesmo disse em sua carta-testamento, deixava a vida para entrar na História.1961
Desde a morte de Vargas, agosto era recebido com receio. E, sete anos depois, o mês voltou a ser motivo de confusão e medo, com a renúncia, no dia 25, do presidente Jânio Quadros.
Jânio, um político de fulgurante carreira, tinha sido vereador, prefeito e governador de São Paulo, sempre carregando a fama de político diferente, com sua vassoura que deveria limpar a corrupção no País. Eleito presidente em 1960, com uma esmagadora votação, assumiu em janeiro de 61 em um clima de muita esperança.
Mas o seu período de governo, apenas 7 meses, foi conturbado e cheio de dificuldades. Jânio não contava com maioria no Congresso. O vice, eleito com ele, era da outra chapa, o sr. João Goulart. O presidente, com um estilo arrogante e agressivo, acabou também se desentedendo com aliados, entre os quais Carlos Lacerda (de novo), que foi um dos aríetes na oposição ao presidente.
Entretanto, naquele 25 de agosto, Dia do Soldado, ninguém esperava a surpresa. Após participar das solenidades alusivas à data, Jânio deixou uma carta-renúncia com o presidente do Senado e vôou para São Paulo. E, de lá, para o auto-exílio, em um cargueiro britânico, deixando os brasileiros atônitos. E o Brasil mergulhado numa crise que iria desaguar na implantação do regime militar, em 1964. Para muitos, o golpe de 64 começou em agosto de 61.Lições
Vargas e Jânio marcaram a vida brasileira. E, embora o segundo não tenha sido ditador, o certo é que o primeiro ainda é melhor lembrado. Há muito a criticar no período totalitário de Getúlio Vargas. Mas é indiscutível que o líder gaúcho mudou a História do Brasil. E, com uma habilidade política fenomenal, conseguiu levar o País através um período conturbado na História do mundo, tirando excelentes proveitos.
A aliança com os Estados Unidos e com os aliados na luta contra o nazi-fascismo na Europa é bem indicativa. Um governo totalitário apoiando a democracia. Uma aparente incoerência. Mas a verdade é que o Brasil acabou do lado certo na II Guerra Mundial e, adicionalmente, Vargas conseguiu alguns importantes benefícios para o País em troca deste apoio. A imagem de Getúlio Vargas ao lado de Franklin Delano Roosevelt, o presidente norte-americano que conduziu aquele país na guerra, é bem indicativa da habilidade do homem que depois de ser ditador conseguiu se eleger presidente, em pleito livre, direto e democrático.
Um político hábil que deixou marcas profundas na História do Brasil. A morte, em 54, foi o episódio final de uma vida complexa mas que deixou marcas. Enquanto isto, Jânio Quadros, que despertou tantas esperanças, acabou deixando frustrações e perguntas que continuam sem resposta, 36 anos depois da inesperada renúncia.





