Praça Londrina (Estelio Feldman)
Quando o jovem tenista brasileiro Gustavo Kuerten, o Guga, ganhou o torneio da França e levou para casa alguma coisa acima de 600 mil dólares, um amigo disse considerar uma injustiça isto: o cara dá umas raquetadas e ganha em duas semanas mais do que a grande maioria recebe trabalhando a vida toda. Esta questão do que ganham os grandes astros do esporte não é nova, embora na atualidade, até pelas novas características que a vida ganhou, haja realmente fatos que causem susto.
O Guga receber mais de meio milhão de dólares em uma competição não chega a ser nada diante do que se observa no mundo do esporte (e do espetáculo). O inimitável e fantástico Michael Jordan, o atleta mais bem pago do mundo, tem um faturamento anual que passa dos 50 milhões de dólares. Perto disto, até o que o Ronaldinho ganha parece pouco. Jogadores de basquete, de futebol, corredores de automóveis, tenistas, até mesmo praticantes de atletismo ganham bastante, bem mais do que um profissional comum. Chegam a superar os grandes diretores de empresa multinacional.
Não se trata de uma questão de justiça. É um retrato de nossa época. Se os atletas ganham tanto - em comparação com o que nós, simples mortais, conseguimos - é porque garantem lucros ainda maiores. Ademais, por causa disto, os grandes astros do esporte também ficam em evidência maior. E o que fazem pode servir como exemplo.Élber
O nosso Élber (nosso porque é jogador revelado aqui em Londrina e partiu daqui para mostrar seu talento ao mundo) é um bom, um excelente exemplo. Moço pobre, conseguiu pelo futebol, graças ao seu talento e à dedicação que é absolutamente necessária, dar o grande salto.
Brilhou na seleção brasileira, foi para a Europa e hoje faz sucesso. E, com o sucesso, vem o dinheiro. Que é atualmente uma das medidas sobre o êxito. Mas é, também, indicativo da personalidade.
Élber, ganhando bem - nem tanto, ressalte-se, quanto Ronaldinho, por exemplo - não tem se esquecido dos que não tiveram seu talento e nem a oportunidade que teve. Doa boa parte do que recebe para obras de assistência à infância, aqui mesmo em Londrina. E não o faz com o intuito de aparecer. Afinal, já aparece graças a seus gols e à sua capacidade, no duro futebol alemão. Faz o que faz por ser um bom caráter, por ser mais que um atleta, uma pessoa inteira, um ser humano que se preocupa com os demais, que sabe que esta pode ser a grande justiça, a de distribuir um pouco do que recebe para ajudar os que não tiveram oportunidade.
Pessoalmente, nem conheço o jovem, mas tenho acompanhado sua carreira com admiração e seus gestos simples mas bem concretos de interesse pelos mais carentes com júbilo. Se todos quantos conseguem sucesso financeiro no esporte agissem assim, haveria menos dificuldades para muita gente.Amaral
Outro jogador cujas atitudes positivas me chamaram a atenção foi Amaral, aquele simpático jovem que acaba de voltar ao Palmeiras, que já jogou na seleção, e que desperta curiosidade, entre tantas coisas, por seu olho meio fechado. Pois Amaral, outro jovem pobre que conseguiu sucesso graças ao seu talento com a bola, tinha uma atividade paralela no seu primeiro tempo de Palmeiras: levava comida para os sem-teto que vivem em São Paulo. Para muitos dos desamparados que enfrentam as agruras da falta de tudo, Amaral era uma das poucas coisas boas.
Ele foi para a Europa, não sei se deixou alguém para continuar seu trabalho. Na verdade, como o atleta não fazia aquilo como promoção pessoal, pode até ser que tenha se preocupado em manter o atendimento àqueles que dependiam de sua ajuda. Ou também é possível que os desamparados de Portugal tenham encontrado ajuda por parte daquele jovem no tempo em que esteve por lá.
O que Amaral, Élber e muitos outros fazem - quase sempre sem que a gente saiba, porque não buscam fama por isto, tem-na graças a seu talento - é a parte justa desta aparente injustiça citada pelo meu amigo, diante dos valores imensos que os atletas auferem com suas vitórias ou com seus gols. Ninguém disse que o mundo é justo. Quem pode fazê-lo assim somos nós, através de nossas atitudes, sejamos atletas bem pagos ou meros mortais lutando pela vida.Lembram do Senna?





