Assinada pelo sr. Júlio Botelho, recebo carta do Conselho Tutelar relativa ao comentário aqui feito sobre as chamadas crianças de rua e mais especificamente sobre as ameaças feitas contra elas. A questão me parece das mais sérias e penso que é fácil explicar o porquê. Basta que a gente comece a falar a respeito em um grupo de pessoas para perceber que há muitos que comungam das idéias dos que querem uma ‘solução’ diferente para o problema.
Chega a ser assustadora a constatação. Tem gente que acha que o Código de Defesa do Menor e do Adolescente é ‘culpado’ pela situação e que uma atitude ‘mais dura’ teria de ser adotada para ‘conter’ as ameaçadoras crianças. Concordo que muitas podem ser realmente ameaçadoras. Mas, por que o são? Não comungo com os que dizem que as crianças são basicamente inocentes. Não. Mas o problema básico não é este. Se de fato temos consciência entendo que é preciso ir além da superfície. As crianças de rua são consequência de toda uma estrutura falha e, muitas vezes, falsa.
Chega a ser mais ou menos igual ao problema da violência policial. Criticamos os policiais sem pensar que eles são resultado de uma situação, que os maiores responsáveis são os governantes que pouco se preocupam com a segurança, que não pensam em estabelecer uma política real para garantir de fato a vida da coletividade. No caso das crianças, se dá quase o mesmo. Ninguém tem coragem de falar nos adultos que as exploram nem de questionar a falta de um atendimento que vá à origem: insisto sempre em dizer que as crianças de rua não nascem na calçada, nem surgem por geração espontânea. Se cuidarmos dos adolescentes que vivem por aí, fazendo, entre outras coisas, outras crianças como elas, poderemos talvez começar a enfrentar o problema na origem. Isto porém é mais difícil do que criticar a lei.
É preciso buscar soluções. Mas é inadmissível a postura nazi-fascista dos que querem resolver o problema com violência.

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