Praça Londrina - Estelio Feldman
Para os cristãos, hoje é o dia mais triste do ano. E não porque se rememora o drama da Paixão e Morte de Jesus Cristo, mas por tudo o que as lições da data encerram. Na visão histórica que temos, já sabemos que a Sexta-feira Santa é o prólogo e não o epílogo, quer dizer, é o começo e não o fim. A morte de Jesus, crucificado, não encerra a História, apenas a abre. Nós sabemos, hoje, o que os apóstolos não sabiam. Para eles, aquelas horas todas, desde a prisão ao suplício, forma de tremenda amargura, sem esperanças.
Quando o corpo de Jesus foi tirado da cruz e entregue à Sua Mãe, cena pungente tão bem revivida pelo talento de Michelangelo, na Pieta, para os que O Amavam, era o fim, terrível, duro. Para nós, porém, a morte foi a radiosa abertura para a Páscoa da Ressurreição.
Isso, porém, não elimina o sentido mais pleno do que se lembra nesta data. Cristo, de fato, morto na cruz, ressuscita. Mas que mundo era aquele em que o justo podia ser morto como um criminoso, sofrendo um dos mais terríveis suplícios a que um ser humano poderia ser condenado? A crucificação de Jesus é o trinfo da injustiça, da iniquidade, do desamor, de tudo o que há de pior no sentimento humano. É a negação dos princípios mais puros que deveriam nortear as pessoas. Foi a vitória das trevas sobre a luz. E se é certo que, depois, veio o triunfo maior de Cristo, isso decorreu não de um ato humano mas do amor de Deus. Rememorar o Calvário, com toda a dor que o antecedeu e o desespero dos que O Amavam, é evocar toda a maldade humana, presente ainda hoje ao longo da vida do homem na Terra.
Meditação
A Sexta-feira Santa, mais do que qualquer outra data do calendário cristão, constitui um chamado à meditação que pode ser feita mesmo pelos que não professam o cristianismo. Os eventos narrados pelos Evangelhos relatam um drama de enorme alcance. Tudo na vida e na pregação de Jesus, conforme o testemunho dos Evangelistas, jamais poderia supor aquele desenlace. O homem que não só falava de Amor mas que era o amor puro, Aquele que passou pelos caminhos da Terra Santa curando doentes, ressuscitando mortos, alimentando famintos, não poderia ter Seus dias como homem terminados na forma de um criminoso crucificado.
Jesus não pregou rebeliões, mostrou-se até um fiel cidadão quando considerou correto pagar impostos com aquela célebre frase dai a César o que é de César. E, no entanto, foi preso como um criminoso, foi julgado como um sedicioso e foi crucificado como se tivesse cometido o maior dos crimes. O mundo O rejeitou.
Mas, os seres humanos, naquela época, tinham uma desculpa para a desumanidade: é que não conheciam a verdade, a luz, a mensagem e o amor de Jesus. Entretanto, caso a gente se detenha só um pouco na História da Humanidade, depois daquela Sexta-feira, vai ver que muita coisa não mudou. Ao longo desses 2 mil anos, muitos justos têm sido vítimas da injustiça, da opressão e da morte. O sacrifício de Jesus não esgotou a crueldade humana.
Conhecimento
Jesus conhecia a fraqueza dos seres humanos. Nos poucos anos de Sua vida, deixou clara a percepção sobre isso. Sabia que, apesar dos milagres, os homens sempre teriam dificuldades para entender e seguir as Suas ordenações. Que, no entanto, eram muito simples, aparentemente: O que vos mando é que vos ameis uns aos outros. E até para deixar claro esse tipo de amor que pregava e vivia, insistiu: Amai-vos como Eu vos amei. Era o imenso amor dAquele que dá a vida pelos amigos.
Na ordenação está contida, sem dúvida, a essência de tudo o que Ele pregou. E, por incrível que possa parecer, esse simples mandamento continua a ser pouco seguido.
Com o conhecimento que tinha da fraqueza humana, Jesus ainda teve forças para pedir, do alto da Cruz, para que o Pai perdoasse aos que O Supliciaram e executaram: Eles não sabem o que fazem. Não sabiam na época e não sabem agora. São 2 mil anos que já se passaram e em que continuam as injustiças, o sofrimento, o desamor. A diferença, sem dúvida, é a de que todas as atrocidades que o homem cometeu, ao longo dos anos, passam agora pelo conhecimento. Sabemos o que fazemos. Perpassa ao lado do homem o eco da grande injustiça cometida contra o Justo, em Jerusalém, naquela antevéspera da Páscoa judaica. E é preciso rememorá-la para que um dia a lei de Jesus, a do amor, triunfe neste pobre e sofrido planeta.
O companheiro





