Projeto prevê a reativação do chafariz, desligado há mais de dez anos
Projeto prevê a reativação do chafariz, desligado há mais de dez anos | Foto: Saulo Ohara

Arapongas - A praça Mauá, no município de Arapongas (Região Metropolitana de Londrina), é muito mais do que uma área pública destinada ao lazer da população. O espaço, criado na década de 1930, guarda parte da história araponguense e serviu de cenário para acontecimentos importantes. Considerada o marco zero da cidade, foi o ponto de partida para o traçado de ruas e logradouros e nela funcionou o primeiro terminal rodoviário. Hoje, o local está abandonado. O mato toma conta dos canteiros, o chafariz está desativado, os brinquedos do parque estão sem condições de uso e os bancos precisam de reparos. Também não há banheiros ou segurança. O resultado de tanto descuido é a ausência de frequentadores.

Há 22 anos, Manoel Rodrigues de Souza, 89, deixou o sítio onde vivia, na Colônia Esperança, em Arapongas, e mudou-se para a cidade. O carrinho de pipoca foi a forma encontrada por ele para ganhar a vida e, ao mesmo tempo, aplacar a saudade da esposa, recém-falecida. Escolheu a praça Mauá para exercer o seu novo ofício e conta que era uma época muito boa. “Tinha muita gente circulando, tinha o chafariz funcionando, ficávamos aqui até as 23 horas. De sábado e de domingo era quando eu mais fazia dinheiro”, recorda. “Mas hoje o movimento é fraco. As pessoas não vêm mais à praça”, lamenta o pipoqueiro.

A Prefeitura de Arapongas promete mudar o cenário do qual Souza se queixa. Um projeto prevê uma completa revitalização do espaço. Os recursos, cerca de R$ 1,6 milhão, virão do governo do Estado, por meio da Sedu (Secretaria do Desenvolvimento Urbano), e o convênio já foi assinado. “O prazo de conclusão da obra é de oito meses. O Paranacidade vai encaminhar o edital e vamos fazer a licitação. As obras deverão ser entregues no final do primeiro semestre de 2020”, disse o arquiteto e gerente de Desenvolvimento Urbano da Seodur (Secretaria Municipal de Obras, Transportes e Desenvolvimento Urbano), Israel Biason.

Melhorias e integração

O projeto contempla a construção de um calçadão, playground, academia da terceira idade, troca de pavimento, melhoria do paisagismo e da iluminação, ampliação da área gramada e a reativação do chafariz, desligado há mais de dez anos. A praça também dá acesso à EMA (Escola Municipal de Artes) e a intenção da prefeitura é criar uma área de integração entre os dois espaços. “Vamos tentar resgatar algumas coisas do passado na praça porque além de uma área contemplativa, ela faz a ligação de pessoas do centro aos bairros e faz parte da memória coletiva da população”, destacou Biason.

“Eu frequentava muito esse lugar quando era criança. Tinha o chafariz e uma espécie de riozinho que atravessava a praça. Era muito bonito e dava uma sensação de frescor. Hoje eu sinto medo de vir. Às vezes, passo por aqui, sento em um banco para descansar, mas sempre com medo porque tem muitos usuários de drogas circulando”, disse a auxiliar de serviços gerais Janete Ramos Correia. A revitalização, acredita ela, poderá devolver ao espaço o clima familiar de antigamente.

“Precisava de uma boa arrumada aqui nessa praça. Tem que ter banheiros para o pessoal e os bancos e brinquedos do parque têm que ter condições de uso. Lembro quando tinha a fonte luminosa. Era muito bonito e lotava de gente aqui. Era divertido. Hoje, nem crianças vêm mais. Os brinquedos estão todos enferrujados”, lamenta o auxiliar de serviços gerais aposentado Afonso Ribeiro Evangelista. Ele conta que chegou a frequentar os cinemas e se recorda de quando as pessoas, antes ou depois da exibição dos filmes, permaneciam na praça. “O movimento ia até de noite. Naquele tempo era bom, não tinha violência. Hoje não tem segurança nenhuma.”

Feira da Lua

Segundo Biason, a revitalização da praça Mauá faz parte de um projeto maior de readequação de espaços públicos que inclui a cobertura da área próxima à praça que abriga a Feira da Lua, às quintas-feiras. “A feira está a menos de cem metros da praça, fortalecendo o local de lazer e eventos do município, que já existe. A feira vai ter uma cobertura de quase 200 metros de extensão. Aquela região vai virar um centrinho de eventos”, adiantou o gerente da Seodur. A obra de construção da cobertura da Feira da Lua está em fase final de aprovação do projeto pelo Paranacidade.

O local foi o ponto de partida para o traçado de ruas e logradouros
O local foi o ponto de partida para o traçado de ruas e logradouros | Foto: Saulo Ohara

A praça é do doutor, mas

quem dá nome é o povo

A praça Mauá foi a primeira a ser construída em Arapongas, na década de 1930, quando ainda era distrito de Londrina. O espaço é considerado o marco zero para o traçado de importantes ruas e avenidas da cidade, desenhado pela Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. No início, era denominada Jardim Arapongas e servia de ponto de embarque e desembarque aos passageiros dos ônibus intermunicipais. O nome praça Mauá veio na década seguinte, inspirado na praça homônima da cidade do Rio de Janeiro, muito famosa na época pelas transações comerciais que aconteciam no porto da capital fluminense e também por abrigar o primeiro arranha-céu do Brasil, o edifício A Noite, com 22 andares.

O nome foi mantido por cerca de uma década, mas em 6 de setembro de 1951 um decreto-lei mudou a nomenclatura do espaço público para Doutor Júlio Junqueira, em homenagem ao primeiro prefeito eleito do município, emancipado em 1947. Em 12 de fevereiro de 1952, um novo decreto-lei determinou que o espaço público voltasse a ser chamado de praça Mauá e com um terceiro decreto, datado de 1º de abril de 1966, a praça voltou a ter o nome do ex-prefeito. A homenagem a Júlio Junqueira permanece até hoje, mas os araponguenses desconhecem a denominação oficial e se referem ao espaço como praça Mauá. “Acredito que as mudanças de nome aconteciam por questões políticas”, disse a gerente e historiadora do Museu de Arte e História de Arapongas, Camila Ribeiro.

A primeira mudança estrutural na praça aconteceu na década de 1960, quando o espaço foi arborizado. Depois, o chafariz ganhou luzes e um sistema de som. Na década de 1990, o antigo relógio foi removido. “Quando vieram os estacionamentos ao redor, foram sendo feitas algumas alterações, mas a praça sempre teve papel importante. Aqui aconteciam manifestações, eventos religiosos e o Carnaval, por muitos anos, aconteceu na praça. Foi na praça também que aconteceu a inauguração da rede elétrica, quando a energia chegou à cidade”, lembra a historiadora.

A região da praça também guarda outros endereços históricos, como o prédio do Cine Mauá, que chegou a ter 1.400 lugares, e onde hoje funciona o teatro municipal, reduzido a 400 cadeiras. E era por ali que ficavam também o Cine Arapongas e o Cine Brasil.

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