PRAÇA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de outubro de 2002
Estélio Feldman 
Voto de protesto
Até mesmo o progresso que acompanha o processo eleitoral pode ser motivo para questionamento de alguns leitores. Uma leitora veio reclamar, por exemplo, da urna eletrônica, afirmando que se estivessemos ainda na época das cédulas, as urnas ficariam abarrotadas de ''votos de protesto'', o que inclui a série de piadas (algumas pesadas e grosseiras) sobre políticos. Foi além a leitora ao enfatizar que se fosse possível, o humorista do programa ''Casseta'', da Globo, teria mais votos que muito candidato. Não duvido. Entretanto, a impossibilidade de escrever bobagens ou votar em quem não é candidato (e os mais antigos podem até lembrar que houve um rinoceronte que ganhou mais votos em São Paulo do que alguns candidatos a Prefeito, o que não mudou nada a situação política na paulicéia), não evita o protesto do eleitor. Há a opção do voto mulo, do voto em branco.
Mas, em verdade, o voto não deve ser de protesto e sim de afirmação. O país não ganha nada com humorismo de valor discutível na urna, nem com a ausência do eleitor. O que resolve é a postura concreta do eleitor, assumindo seu papel de agente efetivo da democracia, atuando até como fator de mudança na vida pública. Nunca há de ser demais rememorar o papel vital do eleitor nos duros anos da ditadura que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.
Os detentores do poder, que queriam posar de democratas, fizeram o impossível para evitar que o povo, nas urnas, os banissem. Mantiveram as eleições mas usaram os mais variados recursos, chamados casuísmos à época, visando ganhar a legitimidade do voto. Até o futebol foi usado neste esforço, cunhando-se na ocasião a frase ''onde a Arena (o partido do golpe) vai mal, um time no Nacional''. Com isto, o Campeonato Brasileiro de Futebol inchou. Mas o povo não se deixou enganar.
Nas eleições ocorridas ao longo daquele duro período, notadamente após 1974, o povo foi derrotando a ditadura, superando todos os entraves até chegar a alterar o próprio Colégio Eleitoral (um truque que deveria garantir a vitória do candidato do totalitarismo no pleito presidencial indireto), o que precipitou o fim da ditadura. Não se pode, nem se deve, esquecer aqueles brasileiros que lutaram, que foram presos, humilhados, torturados, até mortos, na luta pelo restabelecimento da democracia. Mas é inegável que o povo brasileiro participou, pelo voto, dando o passo definitivo para derrubar o regime autoritário.
O voto daquele tempo era, sem dúvida, o verdadeiro voto de protesto, da consciência, da força de um povo. E é só este protesto que deve ser usado agora, com a escolha consciente, com a participação efetiva e corajosa do eleitor na definição do seu próprio futuro. Assim como, então, o eleitor mudou o rumo da História, hoje isto pode ocorrer desde que haja o mesmo espírito que já norteou este povo.


