PRAÇA
O direito de votar
O comentário feito ontem sobre a importância do voto suscitou a reação de uma leitora que veio pessoalmente questionar algumas coisas. O ponto fundamental da argumentação da leitora é seu inconformismo pelo fato de o voto ser obrigatório. De fato, votar deveria ser facultativo. E a grande verdade é que a obrigatoriedade não representa um ônus diante da realidade sobre a importância efetiva do voto em si.
Já se discutiu isto muito, no Brasil. Os constituintes de 88 chegaram a cogitar da idéia de tornar o voto facultativo. Prevaleceu a manutenção da obrigatoriedade face a um argumento que, sem dúvida, parece totalitário: o povo, não obrigado a votar, iria se ausentar das urnas, é o que se dizia e o que prevaleceu para que o voto continuasse obrigatório. É lamentável, sem dúvida, mas é certo que, infelizmente, descartada a obrigatoriedade, a abstenção seria muito mais elevada.
Ocorre que as pessoas, infelizmente, ainda não perceberam a grandeza e a importância do voto. Fala-se muito sobre a má qualidade dos candidatos, não poucos afirmam que sempre precisam escolher o menos ruim. Mas, se isto ocorre, a culpa não é da democracia mas da falta, mesmo, de consciência cidadã. E não se pode esquecer que este tipo de conscientização evoluiu muito no Brasil, nos anos recentes.
Votar é mais do que uma obrigação, um direito verdadeiramente sagrado do cidadão. Ir à urna é participar efetivamente do processo de Governo. Claro que há outras e vitais etapas na participação. O ideal seria que a maioria participasse de todas as fases, começando por uma vivência dentro dos partidos políticos. Afinal, é dos partidos que surgem os candidatos. O eleitor que contesta a qualidade dos que disputam o voto poderia estar lá, como candidato, desde que participasse do processo. Mas há muitos que dizem que política é negócio sujo, que só gente sem condições é que se dedica a ela. Isto acontece porque, certamente, as pessoas boas e limpas preferem se omitir, ficando fora do processo.
Quem não vota, quem se omite, quem vai à urna apenas por obrigação está errado e não percebe a importância da democracia, o valor da participação, a grandeza de um sistema em que todos são iguais e em que o cidadão participa ativamente da vida pública nacional. Precisamente estes são os que ajudam a piorar as coisas, porque se afastam, porque não participam, porque se sentem superiores à população. São mais totalitários que os que tornaram o voto obrigatório.
Votar é, fundamentalmente, um direito da cidadania. Votar bem, com consciência, escolher o melhor, não se furtar ao debate político, reclamar dos candidatos, exigir dos governantes tudo isto faz parte do processo de participação, a única forma real para que o país como democracia se aprimore.
Menosprezar o valor da urna é, de forma insidiosa, cavar a sepultura da própria democracia.





