Praça
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de julho de 2002
Estélio Feldman 
O povo não quer praça
''A praça é do povo, como o condor é dos ares'', diz o poeta, com propriedade. Possivelmente também por isto é que esta coluna se chama Praça: o objetivo é precisamente o de criar um espaço que seja do povo, como as praças, segundo o poema. Entretanto, por incrível que possa parecer (ou não tão inacreditável, quando se conhecem as causas) o povo não está querendo praças nos locais em que mora.
Esta é a conclusão de um estudo feito por universitários de Londrina em loteamentos e bairros da cidade. Sabe-se que, conforme a lei, cada loteamento tem de ter uma parte doada ao município para a realização de obras públicas. Normalmente, projetam-se no espaço escolas, postos de saúde e praças. Mas o povo, consultado, não quer as praças. Aceita, de bom grado, escolas, quer (e necessita) postos de saúde, pede locais para a instalação de postos policiais. Mas rejeita, radicalmente, praças.
A explicação é simples: as praças, atualmente, não são mais do povo e sim dos desocupados, dos viciados, dos marginais. Isto sem citar o mato, os bichos, a sujeira. Parece distante o tempo em que as famílias passeavam nas praças, que tinham inclusive coreto em que, aos domingos (e muitas vezes também aos sábados e feriados) a ''furiosa'', nome que se dava às bandinhas municipais, encantava a todos com suas marchas e dobrados. Hoje, as famílias ficam em casa, não só por causa da TV, mas com medo dos ladrões, as crianças brincam com o videogame, igualmente sem coragem de correr livremente pela rua.
Sinal dos tempos, sem dúvida, a exigir uma observação mais séria e profunda das autoridades. Não há a necessidade de coretos, embora a população evidencie, quando tem oportunidade, que gosta de música, quer sair de casa, assistir a um espetáculo alegre, mas o que se reclama é que sejam oferecidas condições mínimas de segurança para que o povo possa viver menos assustado, voltando às praças e as aceitando como um benefício.
Olhar as estrelas
Nos filmes da série ''Homens de Preto'' os personagens, agentes incumbidos de vigiar os alienígenas que ''vivem'' na Terra, os agentes reclamam que não olham mais para as estrelas. Bom, em Londrina, embora não haja (acredita-se) nem ETs nem ''homens de preto'', também é complicado olhar as estrelas. Principalmente para quem anda pelas calçadas que se encontram, de modo geral, em estado precário. Aquele que andar pelas ruas de Londrina, à noite, embebecido pelas estrelas e todos os que vêm de cidades maiores ficam encantados com o céu menos poluído daqui corre o sério risco de parar em um hospital com algum osso quebrado. Antigamente dizia-se que ''o homem olhou para a mulher e não viu o poste'', o que deu como resultado uma belíssima trombada. Hoje é possível dizer que o londrinense que olha para as estrelas pode acabar num buraco.


