Pra muita gente é melhor morto do que preso
Curitiba - Em fevereiro de 2007, João envolveu-se em uma troca de tiros e foi apreendido sob a acusação de tentativa de homicídio. Foi encaminhado para a Delegacia do Adolescente e passou um ano privado de liberdade em dois Centros de Sócio-Educação (Cense). Depois que voltou à sociedade, participou de algumas atividades de ressocialização e, ainda assim, durante o período de liberdade assistida, envolveu-se novamente com o tráfico de drogas.
E o que você faz hoje? Estuda?
No momento eu estou parado. Escola, eu vou voltar a estudar.
Como você ganha dinheiro?
Ah, tem vários tipos, quando não tem nada pra fazer, a gente faz alguma função. Levanta um dinheiro, sai fora, volta...
O que é fazer função?
É a maneira mais fácil de ganhar dinheiro. Quando tem alguém de atitude, que sabe que dá pra confiar, a gente sai pra roubar. Mas quando não tem, fica na vila vendendo droga.
Você vende droga às vezes?
De vez em quando eu vendia. Já faz uns dias que eu não mexo mais. Agora estou mais sossegado. A namorada embaça.
Você não tem medo?
Medo dá, mas fazer o quê?! Precisa.
Do que você tem medo?
De voltar a ser preso, porque daí é zica agora. É a única coisa, do contrário é tranquilo.
E da morte?
Sei lá, depois que já está envolvido, você sabe que está correndo risco. Você que escolheu. Só que depende, pra muita gente é melhor morto do que preso.
Por que você acha que começou a vender droga?
Influência de amigos, o dinheiro fácil, você acaba se envolvendo.
Você usa droga?
Não, drogas químicas não são comigo.
Já acabou matando alguém?
Daí é zica...
O que você vende?
Crack, pedra.
Você conhece quem controla o tráfico lá da vila? Como funciona?
Tem bastante, uns pá em cada canto. Uns controlam, nas outras partes ficam os outros menores cuidando.
Você tem uma boca?
Tem um lugar na nossa vila, os caras vão comprar. Quando a gente está lá, se tem, vende.
E você consegue com outros caras de lá?
É um cara de fora.
Desde pequeno você convivia com esse tipo de coisa?
Que a gente via que rolava, desde pequeno. Mas se envolver, dos 14 anos em diante.
Com violência também, não só tráfico?
É normal, você sempre vê, briga num canto, um dando tiro em outro...
O que você quer para a sua vida no futuro?
A tendência é arrumar um serviço, mas ainda faltam cinco meses pra pegar a reservista e os caras embaçam pra serviço. Nesse tempo você se vira como pode.
Teoricamente a medida sócio-educativa seria para ajudar a voltar para a sociedade com uma outra alternativa. Você acha que ajudou?
De certa forma não, porque você entra lá, pratica uma coisa. Só que lá dentro você encontra pessoas que fizeram coisas piores que você e, de certa forma, você se habitua. Aquilo ali se torna normal pra você. Você sai e a tendência é piorar.
Mas teve alguma coisa que foi positiva?
Tem coisas que fazem você pensar em não voltar a fazer o mesmo. Mas não é tanta coisa que se compare ao que influencia você a continuar sossegado. É onde você pesa, põe numa balança, pesa, escolhe o lado que você quer ir e seja o que Deus quiser.
Como foi quando você saiu para a liberdade assistida?
Eu tinha que me apresentar todo o dia 6, estar estudando, fazendo curso. Também quando eu saí, eu comecei a fazer estágio.
Eles (Justiça, município, Estado) acompanhavam, sabiam o que você estava fazendo?
O que eles acompanhavam mais eram os estudos.





