Curitiba - Marisa Moretti Galvão, de 28 anos, descobriu aos 14 anos de idade que tinha ceratoconia, uma doença que causa deformação na córnea. Em fevereiro deste ano ela teve perda parcial da visão. Precisou parar de trabalhar e por quase um mês ficou totalmente dependente de ajuda para se locomover. O retorno à vida normal só aconteceu em março, graças à solidariedade da família de uma outra jovem, Regiane Roberta Esperança, que morreu em um acidente de trânsito em Curitiba. A família decidiu doar as córneas de Regiane, que também tinha 28 anos, e Marisa foi beneficiada.
A história de Marisa e Regiane foi um dos casos relembrados ontem, em evento organizado pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) para marcar o dia de Santa Luzia - a santa protetora dos olhos. Contando com a presença de médicos e representantes de unidades de transplante de todo Estado, o objetivo do encontro foi alertar as autoridades sobre a importância de investir em campanhas e recursos que permitam aumentar o número de transplantes e reduzir o drama de quem está em filas de espera.
Só no Paraná, segundo dados da Central de Transplantes da Secretaria de Estado da Saúde, mais de 1,7 mil pessoas aguardam na fila. Este ano, o Estado conseguiu superar, pela primeira vez em dez anos, a marca de 750 transplantes de córnea, colocando o Paraná como o terceiro Estado que mais faz esse tipo de intervenção. O número, no entanto, ainda é pequeno se comparado com as 4.756 cirurgias feitas em São Paulo em 2006. No ano passado, o Estado paulista foi responsável por mais da metade dos 9.848 procedimentos realizados no Brasil.
Dados do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde (SNT-MS) mostram, ainda, que em 2006 as cirurgias se concentraram basicamente em seis Estados. Um total de 4.756 cirurgias foram realizadas em São Paulo; 805 (RS); 795 (GO); 632 (MG); 615 (PR); 522 (PE).
''Para mim, foi a esperança de uma nova vida porque deixar de enxergar é muito difícil'', dizia Marisa, que ficou 1 ano e quatro meses na fila da Central de Transplantes, e ontem se encontrou com a irmã de Regiane, Katia Regina Esperança, no evento do Conselho. ''É um momento de dor muito difícil, mas é gratificante depois ver que é na dor que gente pode fazer outra pessoa voltar a enxergar'', disse.
Outra que experimentou a alegria de voltar a enxergar foi a advogada Juliana Urban Palhares Wiedermann, 29 anos, com ceratoconia desde os 15 anos e que passou dois anos e meio na fila. ''Eu já não tinha mais qualidade de visão, também estava tendo problemas de adaptação à lente de contato rígida, tinha cicatrizes na córnea'', conta ela, que fez o transplante há um mês e meio. Apesar do pouco tempo, a visão já melhorou bastante e o rendimento no trabalho melhorou. ''Como advogada tenho que ler, ver os processos, trabalhar no computador, dependo muito da visão para exercer minhas atividades.
Para o oftalmologista Hamilton Moreira, presidente do CBO, as filas são incompatíveis com os avanços da medicina e com a facilidade de realização do transplante de córneas. A retirada da córnea do doador, que deve ser feita até 12 horas após a parada cardiaca, é feita no local, não deixa o corpo do doador defeituoso, nem provoca alteração na fisionomia dos olhos. A cirurgia de transplante é rápida, realizada com anestesia local, em aproximadamente 40 minutos.
Podem ser doadores pessoas desde os 20 até os 80 anos, não importando se apresentam problema de vista, como miopia, astigmatismo e hipermetropia. Entre os receptores, 40 a 50% são portadores de ceratoconia, uma alteração da córnea, progressiva, que atinge os dois olhos, normalmente em pessoas até 30 anos, causando grande dificuldade de visão. O transplante é também indicado em casos de trauma, queimaduras ou doença hereditária.

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