Povo do lado de cá está abandonado
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terça-feira, 04 de fevereiro de 1997
Da Redação 
Os moradores da Usina Três Bocas conviveram por mais de 15 dias com o cai-não-cai da ponte sobre o ribeirão. A Prefeitura chegou a erguer um monte de terra antes da cabeceira da ponte para evitar que carros trafegassem por ela. Com essa limitação, o corpo da sogra de Moisés Brandão, que faleceu dia 26 de janeiro no Três Bocas, não pôde ser velado na casa da filha Zenaide. Tivemos que atravessar a ponte onde um carro funerário nos aguardava. Foi muito triste, lembra Zenaide.
No sábado seguinte, Zenaide, o filho e a nora vieram a Londrina para a missa de sétimo dia da mãe. Quando chegaram, por volta das 23 horas, a ponte não estava mais lá. Tivemos que voltar a Londrina e retornar só no domingo pela manhã. Caminhamos até as duas da tarde, por 12 quilômetros, entrando em fazendas e no meio do mato, conta Zenaide. O marido Moisés fala que não tem coragem de passar de bote pelo ribeirão. É uma barbaridade essa situação.
Disposição para ver o problema resolvido, mesmo que precariamente, é o que não falta aos moradores da região. Ontem, o sitiante Zenilton da Silva estava organizando alguns vizinhos para fazer uma pinguela com troncos de eucalipto.
Zenilton, de 42 anos, mora na Usina Três Bocas desde que nasceu. No sábado, ele, a esposa e dois filhos vieram a Londrina e somente ontem voltaram para casa. Ele fez a travessia usando uma corda. A mulher, com os filhos de 7 e 4 anos, foi transportada no bote do Dito.
O dono do bote, José Benedito Moreira, quer vender a terra e ir embora daquela região. O povo do lado de cá está abandonado. Moro com meus pais que são velhinhos. Se um dos dois precisar de médico, vou ter que transportar no meu bote. Dito é aposentado por motivo de doença e recebe R$ 80,00. Aqui não tem muito o que fazer. A diária da lavoura é R$ 5,00 e tenho problema de respiração. Agora vem essa chuva e a ponte cai para complicar a vida da gente.
O lavrador aposentado João Augusto Pereira, de 66 anos, usou o bote do Dito ontem para levar o cunhado de 48 anos ao posto de saúde da região. Ele tem problemas de saúde e todo mês precisa ir ao posto. Só que ele não tem condições de ir sozinho. Hoje, temos que ir de bote. Pereira mora no Três Bocas há 40 anos.
(Carina Pacolla)


