Poupança alta dificulta financiamento
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quarta-feira, 25 de março de 1998
Célia Baroni 
A paz pode demorar a chegar ao Residencial Jardim das Américas (zona norte). Os moradores estão discordando do valor da poupança cobrado pela empresa Mendes Neto, administradora do empreendimento. Dos cerca de 1.200 moradores do Residencial, poucos encaminharam os documentos à Caixa Econômica Federal (CEF) pedindo o financiamento (apenas seis até a semana passada).
O presidente da Associação de Moradores do Residencial, Wilson Ramos, diz que poucos moradores conseguirão o financiamento porque não vão poder arcar com a poupança. Ele informa que os moradores consideram a cobrança indevida e querem entrar na Justiça.
A empresa - diz Ramos - estaria cobrando uma poupança de R$ 10 mil para os apartamentos de três quartos e de R$ 5 mil para os de dois quartos. No contrato, a empresa se compromete a abater do valor do apartamento a quantia paga pelos moradores desde o início do contrato. Mas isso também não satisfaz os condôminos. Como o valor que eles estão cobrando é alto, em alguns casos a diferença entre o que o morador já pagou e o que a empresa está cobrando chega a R$ 4 mil.
Sem acertar com a empresa, os moradores não podem se candidatar ao financiamento da CEF. Pelos cálculos da Associação, em alguns casos, mesmo que a empresa parcele em 10 vezes, os moradores teriam de desembolsar cerca de R$ 600,00 por mês para arcar com as prestações do financiamento e a poupança. A prestação do financiamento da CEF deverá variar de R$ 170,00 a R$ 224,00 - em 240 meses -, dependendo do tamanho do apartamento.
Wilson Ramos diz ainda que, com a poupança exigida pela administradora, os apartamentos estariam sendo vendidos por valores entre de R$ 21 mil a R$ 30 mil. Um custo muito acima do valor de mercado desses imóveis, considera.
A solução, de acordo com presidente da Associação, seria a empresa cobrar de quem está atrasado com as mensalidades e dar como quitada a parte da poupança para quem está em dia. Assim a pessoa teria de arcar apenas com o financiamento.
O sócio-proprietário da Mendes Neto, Manoel Neto, afirma que as informações da Associação estão equivocadas. Ele esclarece que a empresa estabeleceu um valor máximo de R$ 2.500,00 para o resíduo de poupança a ser cobrado. Mesmo que o morador esteja devendo R$ 4 mil, ele vai pagar apenas os R$ 2.500,00. Apesar do contrato definir o parcelamento da poupança em no máximo 10 vezes, a empresa está fechando acordo com parcelamentos maiores.
Manoel Neto explica que os moradores assinaram contrato com a empresa adquirindo um imóvel de 2.800 UPFs (unidades-padrão de financiamento), o que em 1992 equivalia a aproximadamente R$ 18 mil. Segundo Neto, em valores de hoje, o mesmo número de UPFs equivale a R$ 40.376,00. Neste período, analisa, o preço de mercado dos imóveis em geral caiu e o valor da UPF foi reajustado pelo Governo, provocando o aumento da dívida.
Os desentendimentos estão acontecendo porque a maioria das pessoas não compreende que a demora não foi culpa da empresa. Se o financiamento saiu foi porque empresa e CEF declararam uma trégua para garantir o direito dos moradores, diz. O residencial foi concluído em 1992, tem 1.424 apartamentos, mas a CEF só liberou o financiamento do empreendimento no último dia 16 - após acordo com a empresa.
Pelo acordo entre a CEF e a construtora Santa Cruz, representada pela Mendes Neto, a CEF fez uma nova avaliação dos imóveis e vai financiar 100% do seus valores atuais de mercado - R$ 20.800,00 e R$ 15.700. A diferença entre o financiamento e o valor contratual do imóvel ficou para ser negociada entre a empresa e moradores.
O contrato estabelece uma relação comercial entre a empresa e comprador. A empresa continua sendo a proprietária do imóvel: ela oferece o produto, mas só o comprador pode decidir se quer ou não fazer o negócio. A CEF não pode interferir neste processo, esclarece o gerente de negócios da CEF, Roberto Luiz Bachmann. Desde a semana passada, um escritório da CEF está funcionando junto ao Residencial para receber pedidos de financiamento, atender e esclarecer as dúvidas dos moradores.


