Curitiba - Torneira pingando, porta rangendo, gavetas abertas, toque do telefone e trânsito movimentado. Incômodos mínimos decorridos de situações comuns que se agravam e podem causar um ataque de nervos em muitas pessoas. Coisa de louco? Não! O descontrole emocional é muito mais comum do que se imagina e as pessoas chamadas neuróticas passam apenas por um momento de insatisfação.
O termo neurótico causa estranhamento e promove o preconceito. Por isso, a autoaceitação da doença é demorada e são poucos os que se submetem ao tratamento. ''Feliz é aquele que enxerga. Eu digo que nós, que participamos do neuróticos anônimos, somos uma elite privilegiada de doentes emocionais que buscaram e encontraram um caminho para a recuperação'', afirma Neide (os nomes utilizados são fictícios), 65 anos, frequentadora da irmandade Neuróticos Anônimos (N/A) há 15 anos.
No grupo, assim como as demais irmandades de anônimos, a recuperação vem da ajuda mútua, por meio da terapia do espelho, em que os participantes falam, escutam e refletem. São relatos de pessoas que não conseguem conter seus impulsos emocionais, sentem-se muito nervosas e, por isso, infelizes.
O período de recuperação dura 24 horas, que se repete diariamente. O objetivo é manter o equilíbrio emocional durante esse tempo, vivendo um dia após o outro. Para isso, os participantes usam o lema ''Só por hoje evitarei o descontrole emocional''.
A oportunidade de ser ouvido sem sofrer preconceitos deixou o técnico em estatística aposentado Pedro Paulo, 56, à vontade para participar das reuniões. Depois de 17 anos no alcóolicos anônimos, ele está há um ano compartilhando seus problemas emocionais e não perde as reuniões realizadas duas vezes por semana. ''Saio de lá calmo, consigo esvaziar meus pensamentos e me acalmo. Quando estou numa boa, recarrego a bateria'', conta.
Depois de passar por uma depressão que lhe rendeu, aos 30 anos de idade, a aposentadoria no emprego, o integrante da irmandade se orgulha de agora ser respeitado pela sua família e pela comunidade em que mora. ''É um crescimento espiritual, moral e material'', diz, quando compara a relação com sua família antes e depois de participar do grupo, que define como o céu e o inferno.

Compulsão sexual -
A Capital também conta com uma irmandade de anônimos que sofrem de compulsão sexual. Manuel, 35, um dos integrantes do grupo, explica que o problema começa quando ''extrapola o equilíbrio''. E completa: ''As pessoas perdem a vida, a identidade. A gente passa a ser um escravo da situação, não existe aquela cumplicidade da relação conjulgal''.
Irmandade recente, os compulsivos sexuais anônimos não são recomendados apenas a pessoas em tratamento. Para Manuel, é uma oportunidade de ter contato com novas experiências e de autoconhecimento. ''Quem participa conhece uma realidade maior da vida. Aprende a direcionar a energia para o relacionamento, para a coragem, a humildade e a generosidade'', afirma. (Carolina Gabardo Belo / Equipe da Folha)

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