‘‘Saí de um lote de 3,5 alqueires, em São Jerônimo da Serra, com a mulher, sete filhos e uma vaca. Hoje, estou plantando em um lote de seis alqueires, tive mais dois filhos, tenho 30 vacas e um trator. Minha vida melhorou 90%’’. O relato, em tom humorado, é do agricultor Fernando Justino Santana, 54 anos, um dos moradores do assentamento Água da Prata, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina).
Formado em julho de 1985, o Água da Prata é o mais antigo assentamento de Tamarana e também o que abriga maior número de famílias - 93 distribuídos em 1.650,60 hectares. Todas moravam em uma área de 600 alqueires em São Jerônimo da Serra (95 km ao sul de Cornélio Procópio). ‘‘Éramos posseiros e fizemos um acordo com o Incra. Trocamos aquela área, que foi para os índios, por esta de Tamarana’’, relata o vice-presidente da associação dos moradores, Nivaldo Ribeiro de Amorim.
Mário CesarJonas Alves Bueno, proprietário de mercearia no assentamentoO assentamento Água da Prata foi criado na época em que MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) era uma sigla estranha. ‘‘Não tivemos nenhuma influência do MST. Só ficamos sabendo do movimento dois anos depois do início do assentamento’’, observa Amorim.
Segundo o vice-presidente da associação, apesar das dificuldades enfrentadas no começo, foram raras as famílias que pensaram em abandonar o assentamento. ‘‘Saímos de uma terra bastante fértil para esta que não é tanta. No começo tivemos que preparar e corrigir o solo. Mas houve, no máximo, 5% de desistência e até hoje ninguém pensa em sair’’, ressalta.
O agricultor Santana confirma que não quer abandonar a vida no campo e acredita que seus filhos continuarão na mesma vida. ‘‘Nenhum deles têm vontade de sair daqui para ir trabalhar na cidade. Eles gostam da vida na roça’’, garante. Com a ajuda deles, Santana planta arroz, feijão e milho no sítio de seis alqueires.
Neste 13 anos, o assentamento foi ganhando várias benfeitorias e hoje se assemelha a uma pequena vila. Duas mercearias e uma terceira em construção, posto de saúde, igrejas católica e evangélica fazem parte do assentamento. Para ajudar os agricultores, há maquinários diversos, como uma máquina de beneficiamento de arroz. Crianças do assentamento, informa Amorin, estudam em uma das três escolas localizadas nas redondezas.
Mário CesarAssentamento União Camponesa, também em Tamarana: domínio do MSTJonas Alves Bueno é proprietário de uma das mercearias. Ele conta que mudou para o assentamento em dezembro de 1988, quando comprou a loja. Dois anos depois, resolveu investir também na agricultura e adquiriu um lote que hoje está sendo usado para a criação de gado. ‘‘Daqui não saio tão cedo. Gosto de trabalhar na mercearia e também do sítio’’, afirma.
Ao lado do projeto Água da Prata se localiza outro assentamento, o União Camponesa, criado em outubro de 1997. Os 546 hectares são ocupados por 27 famílias. Ao contrário do Água da Prata, o União Camponesa recebeu influência direta do MST. ‘‘Se não fosse o movimento, não iríamos conseguir nada’’, afirma Adão Porfílio Borges, um dos líderes do assentamento.
Subsídios para a agricultura e construção das casas começaram a chegar um mês após o início do assentamento e surpreendeu até mesmo os sem-terra. ‘‘Os recursos vieram todos juntos e tivemos até um pouco de dificuldade para lidar com isso’’, observa Borges. Na sua opinião, em comparação a outros assentamentos, a situação do União Camponesa é muito boa.
Em sistema de mutirão, os barracos e casas de madeira foram sendo substituídos por construções de tijolos. ‘‘Hoje só falta erguer uma casa’’, relata. Também em conjunto, os agricultores adquirem insumos e outros produtos. O cultivo fica por conta de cada família.
Apesar de pequeno, o assentamento é bastante diversificado quando se trata da origem das famílias. Algumas vieram de municípios da região e outras do Oeste do Paraná. No grupo existem até ex-brasiguaios (agricultores brasileiros que foram ao Paraguai e retornaram).

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