Posseiros desocupam área arqueológica
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terça-feira, 04 de maio de 1999
Lucinéia Parra 
Os posseiros que estavam na colônia Zacharias de Góes, onde estão as Ruínas de Santo Inácio Menor, se anteciparam à determinação do juiz da comarca de Colorado, Cláudio Camargo dos Santos, e deixaram a área há cerca de três meses. O último posseiro a sair foi Élio Alves Pereira. A casa onde ele morava foi destruída. As Ruínas de Santo Inácio Menor estão no município de Santo Inácio (91 km de Maringá), quase na divisa com o Estado de São Paulo. Tijolos fabricados por índios e padres jesuítas, fósseis de animais e objetos usados pela missão estão no museu improvisado numa sala da Escola Estadual Dr. Manoel Firmino de Almeida, em Santo Inácio.
A ordem do juiz para a desocupação da colônia foi dada em abril em julgamento da ação civil pública ajuizada pela Procuradoria Regional de Paranavaí, em 1997. Nas proximidades das Ruínas, só permanece o ex-posseiro, Alípio Pereira dos Santos, que está na área há cerca de 30 anos. A partir do lote pertencente a Santos, toda área, num total de 50 alqueires, deverá ser preservada como parte do patrimônio arqueológico do Paraná.
Marcos NegriniHistória armazenadaParte do material que o aposentado Benedito Alves de Almeida recolheu e guardou está no museu da Escola Estadual Dr. Manoel Firmino de Almeida, em Santo Inácio (topo da página)A missão jesuítica Santo Inácio Menor foi fundada em 1610 pelos padres jesuítas Antonio Ruiz de Montoya, Simão de Maceta e Joseppe Cataldino. A missão também reunia cerca de 100 mil índios, muitos deles catequisados pelos padres. O objetivo da missão era tomar posse de áreas pertencentes à Espanha, conforme o Tratado de Tordesilhas. O nome Santo Inácio Menor foi colocado para diferenciar da cidade Santo Inácio Maior, no Paraguai. Em 1630, os missionários e índios deixaram a missão fugindo dos bandeirantes que escravizavam os índios para o trabalho nas lavouras de cana-de-açúcar. Os bandeirantes chegaram na missão por volta de 1630 e destruíram as malocas e uma igreja construída pelos missionários.
O aposentado Benedito Alves de Almeida, 79 anos, é um apaixonado pela História do Brasil e da Missão. Ele conta que desde a juventude (na década de 20), costumava visitar as ruínas com o pai, que tinha uma propriedade rural no Estado de São Paulo, do outro lado do Rio Paranapanema. No final da década de 40, Almeida mudou-se para Santo Inácio e desde então passou a colecionar objetos que ele mesmo colhia nas ruínas. Todo material foi cedido ao governo do Estado e parte dele está na escola de Santo Inácio.
Em 1948, durante o governo de Moisés Lupion, o Estado desapropriou uma área de 50 alqueires em volta das Ruínas da Missão. Na época eu fui delegado de Santo Inácio e cansei de retirar posseiros que ocupavam a área, lembra. A luta de Almeida em preservar a área foi quase vencida por posseiros que se instalaram nas ruínas na década de 60, quando ele era guarda florestal e foi considerado funcionário fantasma pelo governo de Bento Munhoz da Rocha, sendo aposentado em seguida.
Em 1980, o então Instituto de Terras, Cartografia e Florestas (ITCF), hoje Instituto Ambiental do Paraná (IAP), fez um levantamento na área, identificando sete famílias de posseiros. Os 50 alqueires foram divididos em oito lotes, ficando apenas um lote reservado às ruínas, que deveria ser preservado. Há dois anos, entretanto, a Procuradoria Regional de Paranavaí entrou com ação civil pública denunciando a ocupação da área, que culminou com a determinação do juiz de Colorado, Claudio Camargo.


