Quando o português Isidoro Bento da Silva chegou a Londrina, em 1940, tinha 16 anos. ''Iguais a você, já existem oito mil'', avisava uma placa. ''Como assim?'', perguntou Isidoro para o pai, que havia chegado três anos antes ao país. ''Já existem aqui oito mil pessoas que estão tentando a vida aqui em Londrina como nós'', respondeu o velho. Essa pequena história ilustra bem a presença dos portugueses na fundação da cidade. Se na década de 40 eram oito mil londrinenses, hoje são oito mil portugueses ou descendentes diretos que vivem na região de Londrina.
Na novíssima e ampla Casa de Portugal, inaugurada em março no Aeroporto (zona leste), Isidoro e outros três imigrantes contam suas histórias de vida. Opinam também sobre a situação dos brasileiros que tentam fazer dinheiro na pátria européia. ''É um país pequeno, menor que o estado de Santa Catarina, e tem recebido muito mais imigrantes do que tem capacidade de abrigar'', diz o empresário Adelino Ferreira Marcelino. ''O país também virou porta de entrada ilegal para a comunidade européia, sofre uma invasão de prostitutas e travestis.'' A Folha publicou recentemente reportagens mostrando a situação de brasileiros em Portugal.
Marcelino continua a ler jornais e assistir o canal de TV a cabo português, que estão cobrindo os problemas da imigração. Aos 74 anos, já voltou oito vezes à pátria. Chegou ao Rio de Janeiro em 23 de julho de 1953. Em Londrina, está desde 1º de julho de 1953. ''Ainda tinha café plantado na Avenida Higienópolis'', recorda. Assim como a grande maioria dos patrícios que adotaram o norte paranaense, Adelino saiu do interior de Portugal. Ele conta que o país não tinha entrado na Segunda Grande Guerra, mas foi economicamente arrasado como toda a Europa. Faltavam perspectivas.
E o empresário, que presenciou a fundação da Casa de Portugal em 1954, e hoje é o presidente da associação londrinense, também lembra a vocação migratória do seu povo. ''O português é uma mistura de árabes e europeus, vem dos godos, visigodos e teutos'', explica. ''Integrava tribos que viviam para a guerra, e não tinham como viajar por terra sem despertar animosidade.'' Aí, teve que usar o mar. Como tornou-se povo especial para navegar, o português acabou conhecendo e povoando todos os continentes do mundo, seja na condição de colonizador ou de imigrante.
Mas nem todos escolheram Londrina para viver só pelas oportunidades de emprego que a cidade oferecia. O representante comercial João Marques Esteves Coluna, 61 anos, conseguiu na correria uma passagem aérea para o Brasil em 1961. Motivo: não queria ir para o exército. ''Se em dez dias não arrumasse um jeito, eu ia ter que lutar na guerra em Angola'', conta. Ele lembra da Londrina ainda pequena, que tinha as vilas, a Casoni, a Brasil e a Nova. Desde então não voltou à Portugal.
Em alguns meses, no entanto, estará visitando pela primeira vez o país onde nasceu. Vai na companhia do aposentado Emilio Rodrigues, 76 anos, outro que escolheu Londrina como lar. ''Cheguei aqui em 1º de maio de 1952 e nunca mudei de endereço'', diz. Rodrigues lembra que imigrantes portugueses precisam prestar contas com as autoridades locais. ''Se mudar de uma rua para outra, por exemplo, preciso comunicar à Polícia Federal'', lembra.

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