Num país em que muitas pessoas sapecam sem peso na consciência ''nóis foi, nóis vai e nóis fomo'' assassinar a gramática não é exceção. A reforma ortográfica de 1971, que baniu dos dicionários alguns acentos, não conseguiu destravar a língua do brasileiro, que ainda tropeça no coitado português.
Uma nova mudança está prevista aqui e além mar. Um protocolo nesse sentido, assinado em outubro pelo governo federal, é o primeiro passo para unificar a ortografia oficial da língua portuguesa do Brasil e Portugal.
Quando o assunto é falar e escrever corretamente, se tornou notório que nem autoridades escapam de produzir as suas pérolas. Algo que, por exemplo, não se apaga do currículo de um certo ex-ministro da República nódea''imexível'' para falar a verdade.
Porém, a partir do momento em que a mudança começar a valer, o que depende da aprovação do protocolo por Portugal e Cabo Verde, os portugueses é que terão que se acostumar a ver palavras como ''erva'' e ''úmido'', escritas sem a letra ''h'' inicial, como é grafada atualmente no país dos fados. Portanto, nenhum cidadão lusitano ou de outros países de língua portuguesa passará atestado de burrice ao suprimir a letra muda.
Quando a unificação acontecer de ''fato'' ou ''facto'' duas formas que passarão a ser consideradas corretas a partir da mudança um portuga não perderá as estribeiras numa disputa ortográfica com um brasileiro para saber qual dos dois está certo na grafia.
Na avaliação do jornalista e professor de português, Júlio Tanga, que está concluíndo doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), uma das mudanças mais significativas da unificação que ainda incorporará ao alfabeto as letras ''k'', ''w'', e ''y'' é a decretação da morte do trema, que muitos juram estar morto há muito tempo.
''No que diz respeito ao trema é bom que seja abolido. É um sinal que ninguém usa. Veículos de comunicação, como a Folha de S. Paulo, não usam. O próprio contexto da frase já diz tudo, sendo desnecessário o trema'', afirma Tanga.
Entre as 40 alterações previstas, o professor gostaria que sobrasse alguma que colocasse na linha o uso do hífen, considerado por ele o mais anárquico ponto da gramática em que as exceções até parecem regras.
''Não sei quais mudanças estão previstas, mas são insuficientes. O uso do hífen deveria ser totalmente mudado. Em casos de substantivos compostos como sanguessuga e beija-flor não há um critério sólido para definir a grafia e porque uma é escrita junta e a outra separada. A palavra manda-chuva, por exemplo, no Dicionário Aurélio aparece escrita junta e separada. Um acordo de unificação deveria mexer com o hífen'', destaca Tanga, que é favorável à eliminação dos acentos diferenciais, como está prevista pela mudança em palavras como pára (verbo) e para (preposição).
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa existe desde 1990, mas nunca foi implementado, precisando da ratificação de todos os oito membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Apenas o Brasil, Portugal e Cabo Verde tinham começado a adaptar suas legislações à medida.
Para por ''pilha'' no processo de reforma da língua, os chefes de Estado da CPLP decidiram, na última reunião de cúpula, em meados deste ano, que bastaria a ratificação do acordo por três países para que passasse a valer. Como o Brasil já assinou o protocolo, aguarda agora a aprovação em Portugal e Cabo Verde. O Ministério de Relações Exteriores pediu às embaixadas brasileiras nos dois países que promovam a aceleração do processo.
A unificação da língua portuguesa põe na roda o próprio ensino, que na avaliação de Tanga passa por uma fase de mudanças radicais. O professor lembra que há seis anos se valorizava o ensino da gramática normativa. ''De um tempo para cá, passou a ser valorizada a formação do aluno que tivesse boa capacidade de se comunicar. A norma culta é vista com um certo preconceito'', afirma Tanga, lamentando que muitos alunos têm na cabeça apenas o vestibular que, nessa visão, tira do ensino da língua portuguesa a valorização da gramática normativa, que futuramente na vida profissional fará alguma falta.
''Acho que tudo que visa simplificar o ensino da língua é válido. O português será fácil quando cada letra corresponder a um som'', acrescenta Tanga, dizendo ainda que mudanças tão radicais demorarão para acontecer. Enquanto isso, letras como ''s'' e ''z'', ''x'' e ''ch'' continuarão dando trabalho para muita gente.

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