Especial para a Folha
Quem nunca usou jeans, pulôver (pull over, vestir sobre) ou teve um hobby para esquecer o stress? Essas e uma infinidade de outras palavras usadas constantemente no nosso dia-a-dia fazem parte do fenômeno chamado de empréstimo linguístico. O problema é emprestar, fazer mau uso e não devolver. É isso o que vem acontecendo nas placas e fachadas tupiniquins, criadas e escritas por quem ainda não domina sua própria língua e compõe uma espécie de ‘‘sincretismo comunicoso’’, misturando expressões traduzidas ao pé da letra e inventando monstrengos linguísticos como Leidy, Black Burger, lava-car e Luizinhu‘s.
Mauro FrassonSanto de foraSegundo o professor Pasquale Cipro Neto‘‘muita gente se preocupa mais em falar uma língua estrangeira do que com o uso correto da língua portuguesa’’Há quem diga que ‘‘esse fenômeno se deve ao distanciamento da cultura letrada’’. Esta é a opinião do professor Pasquale Cipro Neto, que ganhou reconhecimento nacional através de uma campanha publicitária - de uma rede de lanchonetes americana - mostrando erros comuns de gramática. Outros estudiosos, como o professor Antônio José Sandman, da Universidade Federal do Paraná, não se consideram tão ‘‘pessimistas’’. Para ele, o empréstimo linguístico é simplesmente o resultado da globalização. Só que muitas vezes esse fenômeno é usado erradamente por pessoas que desconhecem a língua inglesa. O resultado é desastroso e pode ser observado facilmente em placas e cartazes por toda a cidade.
Sandman lembra a expressão originada do latim ‘‘Verba sequuntur ren’’, que significa ‘‘as palavras seguem as coisas’’. Para ele, é inevitável que culturas em contato se influenciem, e que essa influência traga um enriquecimento cultural. O professor lembra também algumas palavras que nos foram trazidas de outras partes do mundo. Da Itália vieram principalmente termos ligados à culinária, como pizza, mussarela, capelleti. Da França vieram a lingerie, os menus, o balé, manicuro e pedicuro. ‘‘O português brasileiro tem muito mais palavras de origem indígena e africana do que o português lusitano’’, afirma Sandman. ‘‘Se todos concordam que essa mistura cultural é que fez com que a nossa língua se tornasse tão rica, por que ser contra essa tendência mundial?’’ Para o professor, o impacto causado por essa ‘‘invasão’’ não é tão grande como parece.
Mauro FrassonGlobalização da línguaO professor Antônio José Sandman diz que o empréstimo linguístico é resultado da globa-
lização. ‘‘É inevitável que culturas em contato se influen-
ciem’’,dizO professor Pasquale é mais cético em relação a esse assunto. Para ele, a influência de palavras estrangeiras na cultura brasileira, e a facilidade com que são absorvidas, se deve principalmente a um descaso com a cultura brasileira. ‘‘No Brasil não se exige, mesmo nas classes mais altas, o uso correto da língua portuguesa, enquanto em muitos países quem não domina a própria língua é considerado cidadão de segunda classe.’’ Para Pasquale, o descaso com a língua portuguesa envolve todas as camadas sociais. ‘‘Muita gente se preocupa mais em falar uma língua estrangeira do que com o uso correto da língua portuguesa.’’

mockup