Patrícia Zanin
De Londrina
Quatro carros do Corpo de Bombeiros, 20 homens e 10 mil litros de água que seriam suficientes para apagar um incêndio de grandes proporções. Mas o porteiro Laércio Gonçalves, 40 anos, só precisou de um pano de prato e rapidez para controlar um princípio de incêndio ontem à noite, no apartamento 170 do 17º andar do Edifício Araucária, na Rua Souza Naves, 170, centro de Londrina.
A chama começou na mangueira de gás do fogão e se espalhou rápido. O fogo foi percebido por uma das quatro moradoras do apartamento. Quando fazia o jantar, notou o começo do incêndio e gritou socorro para as outras três amigas que assistiam TV na sala. Gritaria geral. Primeiro, elas chamaram o porteiro, que passou as recomendações iniciais pelo interfone e subiu em seguida. ‘‘Falei para elas fecharem o registro’’, contou Laércio. Ele trabalha no prédio há três anos e dois meses e viveu ontem sua primeira experiência de ‘‘herói’’.
Como o nervosismo das garotas - estudantes universitárias - não permitiu o desligamento do botão do gás, seo Laércio não titubeou. Primeiro puxou a mangueira, fechou o registro e jogou o pano de prato sobre a chama. Fogo apagado. Os bombeiros, que chegaram rápido, mas não o suficiente para controlar o princípio do incêndio, não tiveram trabalho.
Mas como explicar uma operação desse porte que mobilizou tantos carros e tantos homens para apagar um fogo que foi controlado antes da chegada dos bombeiros? A explicação é do tenente Anderson Williams de Souza Cortez, oficial do socorro que não chegou a ser necessário. ‘‘A sucessão de telefonemas justificou a presença dos veículos e dos homens’’, argumentou. Segundo o tenente, o princípio de incêndio no Edifício Araucária congestionou as linhas do Corpo de Bombeiros. ‘‘Ainda mais no 17º andar, com um grande número de pessoas no prédio, agimos rápido’’, relatou.
Os bombeiros levaram até uma plataforma que seria utilizada em caso de salvamento. A plataforma pode chegar até o 10º andar, segundo Cortez. Se houvesse vítima, o salvamento seria feito até o 17º na base da ‘‘escalada’’, com homens e cordas. ‘‘Também poderíamos usar o sistema hidráulico do próprio edifício para apagar o fogo’’, contou o tenente.
Para as dezenas de curiosos que se concentraram em frente ao prédio e não viram a ação dos bombeiros, mais uma explicação: segundo Cortez, pelo menos 50% dos princípios de incêndio são controlados pelos próprios moradores antes da chegada dos especialistas. E o tenente tranquiliza: se houvesse outros incêndios no mesmo horário do atendimento no centro, que praticamente interditou um quarteirão da Souza Naves, outros seis carros dos bombeiros e mais homens estariam à disposição da população de Londrina.
Depois de sua noite de glória, o porteiro Laércio Gonçalves recebeu os cumprimentos dos moradores e das garotas do 170. Aumento no salário está descartado. ‘‘O que ele vai receber é ainda mais elogios. É um bom porteiro e está sempre pronto a ajudar’’, diz Mariney Gomes Carneiro, esposa do síndico do prédio. ‘‘Ainda bem que está tudo contornado. Na hora foi horrível’’, desabafa, ainda assustada, uma das moradoras do 170, Lisandra Villagra, 22 anos, estudante do curso de arquitetura da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A janta daquela noite foi suspensa.

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