Alexandre Sanches
Enviado a Porecatu
A greve do setor de transporte da Usina Central do Paraná em Porecatu (85 km ao norte de Londrina) e as dificuldades financeiras alegadas pela empresa estão afetando o comércio da cidade e região e demonstram a total dependência do município com o setor canavieiro. Entre comerciantes e moradores, impera a lei do silêncio. Ninguém dá entrevistas sobre a crise vivida pela usina, com medo de retaliações.
Com a greve do setor de transportes — sábado, motoristas pararam caminhões carregados na entrada da usina e murcharam os pneus para que não fossem retirados — os demais funcionários do setor de produção e do corte de cana-de-açúcar também não estão trabalhando.
O diretor responsável pelo setor de transporte da Usina, e também vice-prefeito de Porecatu, Vicente Fontanez, foi abordado pela Folha em uma farmácia da cidade, ontem de manhã. Ele não quis atender a reportagem, garantiu que outros diretores estavam na usina e somente eles poderiam falar sobre a paralisação.
No comércio, os entrevistados só concordaram em falar mediante a omissão de seus nomes. O proprietário de uma mercearia disse que é a primeira vez que vê uma crise como esta na Usina Central. ‘‘Sempre dependi da venda para os funcionários da usina. Muitos me deram calote em problemas passados. Não posso falar mal da empresa. Mas é a primeira vez que ela passa por uma situação como esta’’, afirmou.
Em uma farmácia, o proprietário admitiu que a cidade depende da Usina. ‘‘É difícil encontrar quem não tenha cheques sem fundos passados por funcionários. Quando sai pagamento, é uma felicidade. Mas isso dura pouco’’, ressaltou. Ele conta que muitas empresas já cortaram o crédito de funcionários da Usina. ‘‘Se o cheque é de lá, não há garantia de recebimento’’.
O presidente da Associação Comercial e Industrial, José Teixeira, se recusou a atender a reportagem em sua farmácia. Ao ser questionado sobre os reflexos da crise no comércio local, mostrou-se irritado. ‘‘Aqui eu sou comerciante. Se quiserem falar sobre a Associação Comercial, que me procurem lá. Agora não vou atender’’, disse, virando as costas e deixando o balcão.
A prefeita Neusa Maria Damazo (PTB), que é esposa de um dos diretores da Usina Central e que anteontem estava viajando, ontem não deu expediente na prefeitura. Segundo informações da secretária, Neusa não poderia atender a Folha porque estava de saída para Curitiba, onde trataria de assuntos referentes à Cohapar.Greve no setor de transportes da Usina Central do Paraná causa prejuízos no comércio dos municípios da microrregião
Josoé de CarvalhoRUAS DESERTASSem consumidores, a maioria funcionários da usina, o comércio vive às moscas; comerciantes dizem que o crédito destes clientes foi cortado porque, nem sempre, os cheques emitidos pela usina têm fundos nos bancos; ao lado, piquete na porta da usina

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