Londrina - Os trabalhadores que atuam no serviço de coleta seletiva integram uma fatia da sociedade com fragilidades sociais e dificuldades para acessar serviços básicos, como educação, saúde e moradia. São pessoas como Maria Tomé Siqueira, de 48 anos, que mora em uma ocupação irregular conhecida como Shekináh, na zona norte de Londrina. Maria é analfabeta porque teve que trabalhar cedo para ajudar a família; o local onde vive não tem asfalto, água encanada e energia elétrica.
Na tentativa de melhorar a vida de Maria e de outras centenas de pessoas que trabalham na reciclagem, foi criada uma comissão formada por representantes da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), das secretarias municipais de Educação, Assistência Social e Saúde, Cohab e Provopar. Hoje será realizada a segunda reunião do grupo multidisciplinar. (leia mais nesta página).
Maria conta que foi parar na área irregular porque não tinha condições de pagar aluguel e ainda arcar com outras despesas. Como recicladora, o rendimento mensal é de cerca R$ 700 por mês. "Mas o que a gente acaba recebendo, tirando os descontos, fica em torno de R$ 500", declarou, informando que o marido é funileiro.
Diariamente, Maria faz o café da manhã para os dois filhos mais novos (de 11 e 15 anos), prepara a marmita e, às 7 horas, está pronta à espera do veículo da cooperativa Cooper Refum, para ir trabalhar.
Sua casa ainda não possui reboco externo e nem forro e isso faz com que a umidade entre na casa com facilidade, e a incidência de doenças como a gripe se tornam mais comuns.
Quando Maria precisa ir à Unidade Básica de Saúde, acaba perdendo o dia inteiro de serviço devido à demora no atendimento. "Acabo saindo no prejuízo, pois eu recebo por produtividade", explicou.
Maria recebe R$ 0,30 por saco em que realiza a separação dos recicláveis. O trabalho é feito em um barracão da Cooper Refum, das 8 às 17 horas. Quando chega em casa, ela ainda tem os afazeres de casa, como preparar a refeição. "Mesmo com todos os sacrifícios, gosto de trabalhar como recicladora. A gente aprende muita coisa lá."

Educação
A vizinha de Maria, Darcy Schnaide, de 52 anos, também é recicladora e enfrenta problemas semelhantes. Ela conta que estudou apenas até a 4ª série. "Eu sinto falta de ter mais estudo, mas não me sobra tempo, trabalhando com a reciclagem", relatou. Ela revelou que há dias em que chega em casa às 21h30 devido ao volume de recicláveis que precisa separar. "O mínimo que separo são 20 sacos e o máximo que já fiz são 40 sacos em um dia, ganho por produção."
Segundo Darcy, no barracão onde trabalha existem 10 mulheres que poderiam receber aulas porque têm dificuldades para ler e escrever.
Em outra cooperativa, a Cooper Mudança, o reciclador Osvaldo Darcy Pereira, de 61, relatou que possui apenas a segunda série do Ensino Fundamental. "Eu tenho dificuldades de ler e também de fazer as contas para pagar o aluguel, a água e a conta de luz", destacou.
A diretora financeira da cooperativa, Josilene Gonçalves, de 22, relata que a baixa escolaridade é bastante comum na cooperativa. "Eu mesma não consegui terminar a oitava série. Agora que eu preciso lidar com bancos, sinto falta de ter estudado mais", declarou.

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