Por que Vagner dorme na calçada?
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sábado, 08 de março de 1997
Luka Morais 
Mário CésarElsie e Jeane: trabalho nas ruasNão houve quem não se sensibilizasse ao ver, no começo da manhã de sexta-feira, o menino dormindo na calçada da avenida Rio de Janeiro, centro de Londrina, todo encolhido sobre a grade por onde passa o ar quente. Enquanto alguns preferiam desviar os olhos, outros tentavam encontrar uma forma de ajudar o garoto, doando roupas e comida. Mas bastou a aproximação de uma dupla de mulheres para que Vagner Antonio Mantana, 12 anos, desaparecesse rapidamente. As educadoras de rua do projeto Sinal Verde, coordenado pela Secretaria Municipal de Ação Social, conhecem a resistência do menino aos programas que tentam resgatar o vínculo familiar e social dos menores de rua.
Vagner Mantana veio da região Sul do País na companhia do pai, abandonado pela mulher. Chegou em 95, quando começou a ter passagens pelo Conselho Tutelar. Segundo o conselheiro Eduardo Miguel, o menino já passou por vários programas mas não parou em nenhum. Foi até levado para a Aldeia Infantil Estrela da Manhã, um sítio onde é desenvolvido projeto com adolescentes, em São Sebastião da Amoreira. Esteve lá três meses.
Os educadores de rua conseguiram encaminhá-lo à Casa de Convivência da Escola Oficina, mas não teve jeito. Ele sentiu o gosto da liberdade e da falta de limites para quem vive na rua, diz Elsie Machado de Almeida, educadora de rua desde 95. A falta de estrutura familiar, segundo Jeane Terezinha Buzzo Costa, que há três anos atua com menores, levou o menino a buscar nas ruas uma compensação. Ele precisa mesmo é de uma mãe.
Vagner, segundo o conselheiro tutelar Eduardo Miguel, morava até o final de 96 com o pai na vila Recreio. O problema é que quando uma criança vai para rua, acaba gostando. Lá não tem que escovar os dentes, horário para tomar banho; ela faz o que quer e ainda ganha um monte de coisas.
Mário CésarDifícil acordarVagner, sobre a grade de ar quente: resistência às educadoras
A liberdade das ruas e a generosidade da população que, sensibilizada com a imagem das crianças carentes, não contém o impulso ou ameniza o sentimento de culpa oferecendo dinheiro e comida, são os principais obstáculos ao trabalho dos educadores de rua. Elsie e Jeane pedem: Se você quer ajudar, não dê esmola nem comida. Isso é um incentivo para permanecerem nas ruas. Elas sugerem que as pessoas entrem em contato com a Secretaria de Ação Social ou que levem suas doações diretamente às entidades assistenciais. Pedem ainda que, no caso de observarem crianças perambulando ou dormindo nas ruas, que entrem em contato com o Sinal Verde. Esta é a forma de contribuir com nosso trabalho.
Durante as abordagens, as crianças recebem informações sobre os programas oferecidos pelo Município, a oportunidade de terem uma vida digna, recebendo alimentação, frequentando escolas, brincando, desenvolvendo atividades artesanais, além de serem inseridos no mercado de trabalho. Nossa proposta não é arrastar ninguém porque não somos policiais. Respeitamos esse não-querer das crianças. Muitos casos, dizem Jeane e Elsie, são resolvidos com um simples contato com os pais, uma orientação às famílias sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, sobre os riscos das drogas e a responsabilidade dos pais. O problema é que, quanto mais tempo a criança fica na rua, mais difícil é o trabalho.
Apesar de toda resistência, a dupla de educadoras não desiste. Vão continuar percorrendo as ruas da Cidade, abordando crianças e adolescentes na tentativa de restabelecer o convívio familiar ou de encaminhá-las aos programas do Município. Sabem da importância de evitar que tenham contato com o mundo das drogas. Um trabalho que, segundo atestam, surte efeito em mais de 50% dos casos. Jeane comenta: O problema é que a miséria é grande e a cada dia surgem novos casos, de outras crianças que acabam vindo para as ruas.
Serviço - contatos com educadores do projeto Sinal Verde podem ser feitos pelo fone 325-2525- BIP 4302591, das 8 às 19 horas. Informações sobre os programas da Secretaria de Ação Social pelo 321-1004, ramal 351.


