Ela sabia que aquele dia seria diferente dos outros. Jogo decisivo na TV, tudo ou nada, vai ou racha, estava preparada para aguentar – em todos os lugares – milhões de torcedores verde-amarelos, unidos em uma corrente pra frente. Sabia que, pelo menos até depois do jogo, não ia encontrar ninguém para entrevistar. Órgãos públicos em meio feriado, escolas fechadas, até a polícia em ponto facultativo.
Sentada sozinha em frente ao computador, ouvindo ao longe o grito dos poucos colegas a cada lance mais perigoso, pensava com seus botões como uma simples bola e 22 marmanjos atrás dela tinham o poder de unir 170 milhões de corações. ‘‘A pátria de chuteiras’’, lembrou da frase famosa. O som do telefone interrompe uma meditação amarga – ‘‘o futebol tem o poder de fazer o que nenhum político brasileiro conseguiu: unir o povo’’. Esperançosa, atende, pensando: ‘‘Pelo menos alguém racional que não não quer perder tempo’’.
Do outro lado da linha, a voz aflita: ‘‘Eu queria fazer uma denúncia’’. ‘‘Até que enfim, algo para fazer’’ – imagina. ‘‘Pois não, minha senhora, em que posso ajudar?’’. ‘‘Vocês tem que vir aqui agora, está acontecendo uma injustiça enorme, em frente à minha casa’’, diz, indignada a mulher. Entusiamada, pronta para lutar pela causa dos mais fracos, ela se anima: ‘‘Que injustiça? Aonde?’’, questiona, já com a caneta na mão e o bloco à espera.
‘‘Tem um pessoal da CMTU fazendo roçagem em uma praça aqui, na Rua... A gente chamou eles para assistir ao jogo do Brasil e disseram que estão proibidos, não podem parar de trabalhar. Os chefes deles, a prefeitura, estão todos parados. Por que os coitados não podem?’’, reclama a denunciante.
Murcha, a repórter ainda pergunta: ‘‘Ah, é isso?’’. ‘‘Sim, você não acha um absurdo?’’, retruca a mulher. ‘‘Com certeza, vamos mandar uma equipe a풒, diz, mais para cortar o papo que outra coisa qualquer.
Desligado o telefone, ela ainda se questiona: ‘‘Por que o Brasil precisa parar por causa de um jogo? Por que não pára por mais empregos, melhores salários, menos corrupção? Injustiça é procurar trabalho e não encontrar’’, revolta-se. Mas conforma-se. Logo a Copa acaba e a insensatez cede à razão. ‘‘Pelo menos, é só de quatro em quatro anos’’, suspira.

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