''Por que o Brasil precisa parar por causa de um jogo?''
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segunda-feira, 17 de junho de 2002
Telma Elorza<BR>Reportagem Local 
Ela sabia que aquele dia seria diferente dos outros. Jogo decisivo na TV, tudo ou nada, vai ou racha, estava preparada para aguentar em todos os lugares milhões de torcedores verde-amarelos, unidos em uma corrente pra frente. Sabia que, pelo menos até depois do jogo, não ia encontrar ninguém para entrevistar. Órgãos públicos em meio feriado, escolas fechadas, até a polícia em ponto facultativo.
Sentada sozinha em frente ao computador, ouvindo ao longe o grito dos poucos colegas a cada lance mais perigoso, pensava com seus botões como uma simples bola e 22 marmanjos atrás dela tinham o poder de unir 170 milhões de corações. A pátria de chuteiras, lembrou da frase famosa. O som do telefone interrompe uma meditação amarga o futebol tem o poder de fazer o que nenhum político brasileiro conseguiu: unir o povo. Esperançosa, atende, pensando: Pelo menos alguém racional que não não quer perder tempo.
Do outro lado da linha, a voz aflita: Eu queria fazer uma denúncia. Até que enfim, algo para fazer imagina. Pois não, minha senhora, em que posso ajudar?. Vocês tem que vir aqui agora, está acontecendo uma injustiça enorme, em frente à minha casa, diz, indignada a mulher. Entusiamada, pronta para lutar pela causa dos mais fracos, ela se anima: Que injustiça? Aonde?, questiona, já com a caneta na mão e o bloco à espera.
Tem um pessoal da CMTU fazendo roçagem em uma praça aqui, na Rua... A gente chamou eles para assistir ao jogo do Brasil e disseram que estão proibidos, não podem parar de trabalhar. Os chefes deles, a prefeitura, estão todos parados. Por que os coitados não podem?, reclama a denunciante.
Murcha, a repórter ainda pergunta: Ah, é isso?. Sim, você não acha um absurdo?, retruca a mulher. Com certeza, vamos mandar uma equipe aí, diz, mais para cortar o papo que outra coisa qualquer.
Desligado o telefone, ela ainda se questiona: Por que o Brasil precisa parar por causa de um jogo? Por que não pára por mais empregos, melhores salários, menos corrupção? Injustiça é procurar trabalho e não encontrar, revolta-se. Mas conforma-se. Logo a Copa acaba e a insensatez cede à razão. Pelo menos, é só de quatro em quatro anos, suspira.


