Londrina - A violência de gênero, em especial contra as mulheres, revela uma estrutura social muito desigual em nosso país. E as histórias, tão reais quanto o sofrimento vivido por elas, muitas vezes são carregadas de culpa. A FOLHA ouviu uma especialista para discutir pontos importantes sobre a culpabilização da vítima, pois na semana passada o tema ganhou a atenção dos londrinenses, principalmente nas redes sociais.
Um estudante de Direito teve a prisão decretada na semana passada. Lucas Ferreira Ramalho foi condenado a 12 anos e seis meses de prisão por estupro de vulnerável, pois teria utilizado de uma substância sedativa na bebida de uma jovem e, em seguida, levado-a para um motel na companhia de outro estudante. O estudante teve o pedido de habeas corpus favorável e foi solto, permanecendo preso apenas por duas horas.
A notícia teve 49 mil acessos no portal Bonde, na data da publicação. A repercussão foi tamanha, que em pouco tempo havia centenas de comentários. A grande polêmica, além do fato envolver um universitário, foi o teor das opiniões em defesa dele, incluindo mulheres que atribuíam, indiretamente, uma certa "culpa" à vítima.
Mas por que as mulheres levam a culpa? Para responder essa questão, Silvana Mariano, doutora em Sociologia e chefe do departamento de Ciência Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), lembra que a violência contra a mulher é tão antiga quanto a situação de culpabilizar da vítima.
Ela explica que nossa cultura tem muita influência da tradição judaico cristã, de culpabilizar as mulheres por muitos dos eventos considerados negativos para o desenvolvimento da humanidade. "E os mitos que estão nessa tradição produzem um tipo de vitimização e culpabilização das mulheres. Isso vai ganhando força e até um certo tipo de autonomia em diferentes dimensões em nossas relações sociais", diz.
Em uma comparação com outros tipos de violência, como a urbana, contra idosos ou crianças e adolescentes, a socióloga avalia que é mais raro o fenômeno de culpabilização. Isso ocorre, segundo ela, em virtude desse "caldo" cultural que estabelece comportamentos e produz distintas exigências para homens e mulheres.
"Há um padrão cultural em que as mulheres são educadas para conviver com a culpa. O que existe é uma expectativa de que as mulheres sejam recatadas, dedicadas ao cuidado com o outro. Quando o padrão de conduta delas escapa disso, produz culpa", salienta.
O sentimento de culpa existe desde deixar os filhos em casa para trabalhar até a ideia de que se a mulher sofre um ataque sexual teve alguma responsabilidade em relação a isso, seja pelo tipo de comportamento, da roupa que estava vestindo ou lugar que estava frequentando.

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