Paulo Henrique Faria
De Londrina
Especial para a Folha
Se há dez anos alguém fosse convidado para passear à noite no Conjunto São Lourenço, bairro da zona sul de Londrina, iria pensar mais de duas vezes antes de aceitar tal proposta. Conhecido pela precariedade das condições de vida e violência sofrida pelos que ali moravam, o bairro simples, de gente humilde, transformou-se num exemplo de solidariedade na última década.
A mola propulsora responsável por essa mudança brutal no estilo de vida dos habitantes do São Lourenço foi a urbanização do bairro, que ganhou posto de saúde, mercado, escola, linhas de ônibus e saneamento básico. Além da queda do índice de violência, somente possível após parceria dos moradores, que juntos retiraram crianças e adolescentes das ruas, evitando, assim, brigas com bairros vizinhos e a participação no tráfico e consumo de drogas.
Um dos responsáveis por essa reviravolta do São Lorenço é o morador e fundador da Associação Recreativa e Esportiva do Conjunto (Arescon), Genivaldo José de Lima, 29 anos, há seis anos responsável pelo lazer de 230 adolescentes que sonham com a carreira de jogador de futebol. O próprio Genivaldo vive de futebol: é treinador e trabalha em parceria com empresários de jogadores, desempenhando a função de ‘olheiro’.
Entretanto, a Arescon está passando por dificuldades, como todo projeto que não visa lucros. É a falta de incentivo por parte das empresas privadas e da própria sociedade londrinense, uma vez que os garotos não querem apenas treinar e sim, participar de campeonatos. E como a Arescon não tem estrutura para isso, os jovens acabam se dispersando.
‘‘Nós não queremos dar apenas uma bolinha para a molecada. Queremos dar algo mais, pois temos a pretensão de formar pessoas. Por isso a importância em implementar projetos como o ‘‘Adote um Atleta’’, que o treinador vem tentando junto à Prefeitura de Londrina. ‘‘Um negócio barato – cerca de R$10,00 ao mês por criança –, que poderá ser abatido do imposto de renda como incentivo à educação’’, diz Genivaldo, que é auxiliado por dois estagiários da Unopar (Universidade do Norte do Paraná), pagos pela prefeitura.
Indagado sobre a colaboração da comunidade do bairro, Genivaldo conta que sofre muitas críticas por receber crianças de outras regiões. Mas avisa que as portas estarão sempre abertas e convida a população a participar, nos dias 13 e 14 de novembro, do primeiro campeonato de futebol de salão das escolas estaduais de Londrina.
‘‘Esse trabalho é para colocar em pauta a falta de lazer para a população adolescente da periferia londrinense e também para difundir nosso trabalho para outros bairros. Assim estaremos estimulando outros projetos em várias regiões da cidade’’, explica.
Outro fato importante sobre o bairro da zona sul é o que aconteceu num local conhecido como ‘‘fundo do São Lourenço’’. O terreno, que fica na Rua Delegado Mathias Sampaio e faz divisa com o bairro Jardim Franciscato, serve de atalho para pedestres, principalmente para crianças que moram em um bairro e estudam em outro. Mas é usado como ‘‘lixão’’ pelos moradores menos educados.
Paulo César da Silva, que mora bem em frente ao terreno, conta que durante um tempo o local foi ocupado por um grupo de trabalhadores rurais sem terra. Silva relata que, durante o tempo em que os sem-terra estavam na área não havia mata grande e nem sujeira, pois eles cuidavam da limpeza e manutenção do terreno.
Hoje o mato está alto e a trilha quase imperceptível em meio a tanta coisa velha que ali se encontra. ‘‘Tem até sofá e armário’’, aponta Paulo, lamentando a situação do terreno e a atitude da prefeitura que há um ano expulsou os sem-terra dali. ‘‘Enquanto eles estavam por aqui, tudo era limpo e as pessoas se sentiam seguras em caminhar pela mata. Agora isso virou ponto para uso de drogas’’, reclama.
Só para se ter idéia do crescimento estrondoso que o conjunto sofreu nos últimos anos, o pequeno Jardim Piasentim foi englobado pelo São Lourenço, transformando tudo em um só bairro. A história viva está nas palavras contadas pelo comerciante Antonio Noel Piasentim, 56 anos, integrante da família que ‘emprestou’ o nome ao bairro, há 52 anos.
Ele conta, sem nenhum saudosismo, que lá pela década de 50, quando ainda era um garoto, filho de empregados das plantações de café, toda a região era um grande cafezal. ‘‘Para chegar no centro da cidade demorávamos cerca de uma hora de carroça pelas estradas de terras e víamos, durante todo o percurso, no máximo quatro casas’’, lembra.
Em 1965, a família Piasentim conseguiu dinheiro suficiente para comprar o sítio que pertencia ao patrão. ‘‘Chegamos a colher, de uma só vez, 600 sacas de café. Mas não deu para ficar rico, pois o preço era muito baixo.’’ Essa vida de proprietário rural produtor de café durou exatamente uma década. Foi quando, em 1975, ocorreu a geada negra que queimou todo o cafezal, não sobrando um único pé inteiro. Então toda a região começou a ser loteada.
‘‘O que mais me impressionou foi a rapidez com que a cidade chegou até aqui. Antigamente passava uma carroça por semana, hoje é ônibus de 15 em 15 minutos’’, surpreende-se Antonio Piasentim.

SÃO LOURENÇO
Onde fica: zona sul de Londrina
Característica no passado: carência, falta de infra-estrutura e criminalidade
Perfil atual: esforço da comunidade para dar atividade aos jovensPequenos projetos implantados pelos próprios moradores de bairro da zona sul de Londrina contribuem, inclusive, para a queda da criminalidade
Fotos Paulo WolfgangPENSANDO NO FUTUROProjeto de futebol no bairro reúne 230 garotos que sonham com a carreira de jogador. Abaixo, à esquerda, terreno com lixo e entulho depositados por alguns moradores. À direita, Antonio Noel Piasentin, da família que emprestou nome ao bairro vizinho do São LourençoA igreja do São Lourenço, que nos últimos 10 anos conquistou melhorias como posto de saúde e escolaFotos Paulo WolfgangPaulo César da Silva: crítica aos moradores que sujam o bairroÁrea abandonada é usada como travessia por moradores de dois bairros

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