População idosa vai elevar casos de câncer
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domingo, 27 de novembro de 2011
Pablo Pereira <br> Agência Estado 
São Paulo - Ele nasceu em Paranavaí (Noroeste do Paraná), viveu em Passo Fundo (RS), graduou-se em Brasília e foi médico residente na Universidade de Miami e em Houston. Paulo Marcelo Gehm Hoff, 43 anos, é uma das principais autoridades brasileiras em câncer, professor da USP, e está encarregado de cuidar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que trata de um tumor na laringe. Diretor do hospital Sírio-Libanês e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), tem entre seus pacientes a presidente Dilma Rousseff, além do ex-vice-presidente José Alencar, morto em março. A seguir trechos da entrevista.
O Inca diz que há uma estimativa de 1 milhão de novos casos de câncer nos próximos 2 anos no País. O que isso significa do ponto de vista da saúde pública?
Em 2010, a estimativa era de 500 mil casos. Neste ano, 520 mil. Um aumento substancial, e infelizmente a expectativa é de alta. O Inca falou em 1 milhão de novos casos nos próximos dois anos no País, mas, considerando a expectativa nos EUA, acho que o número será maior. Não é impossível que tenhamos 1 milhão de novos casos por ano quando tivermos uma população elevada acima dos 60 anos.
Hoje temos no mundo em torno de 25 milhões de casos.
E esse número vai crescer bastante. O dramático é que até 2030 essa incidência deve aumentar em mais 15 milhões, predominantemente em países em desenvolvimento, cujas populações estão envelhecendo agora. Nos EUA e na Europa, essa fase de amadurecimento aconteceu há alguns anos. A pirâmide populacional mudou e a incidência, que subiu no passado, começa a estabilizar. Para nós, as curvas ainda são ascendentes.
O envelhecimento projeta um aumento importante dos casos.
A maior parte dos tumores tem mais de um fator de risco, mas, entre todos eles, o mais comum é o envelhecimento. Ele faz com que as células fiquem mais tempo expostas a fatores que podem transformá-las em cancerosas. Mas se abrem oportunidades. O câncer não é doença que se forma do dia para a noite. É um processo longo, de uma a duas décadas, com exceção dos tumores associados a síndromes familiares. Então temos a oportunidade de atuar na juventude, reduzindo os riscos. Você nunca vai conseguir eliminar todo o risco, mas pode reduzi-lo. O jovem sempre pensa que é invulnerável e tende a ser um pouco mais solto em relação a hábitos. Mas o que ele faz agora vai cobrar a conta daqui a algumas décadas. Queremos conscientizá-lo de que hábitos saudáveis agora podem evitar que ele enfrente esse problema daqui a 20 anos.
O caso do Lula (câncer de laringe) é relacionado ao fumo. Qual é o prognóstico?
Hoje, a chance de curar um câncer de laringe é bastante alta, especialmente se ele é descoberto quando ainda está confinado na região onde se iniciou. No caso do nosso ex-presidente, identificou-se que a lesão estava localizada. Então, o prognóstico é bom. Em diversas regiões do País, mesmo instituições que trabalham com o SUS têm a possibilidade de oferecer quimio e radioterapia que levam a uma alta chance de sucesso.
Hoje, o câncer tem cura?
Conseguimos curar mais de 60% dos pacientes.
Quando o senhor fala de cura é eliminar completamente? A pessoa vai morrer idosa ou de uma outra doença?
Exatamente. Alguns tumores têm mais chance de sucesso, como os de testículos, que atingem homens jovens. Temos a chance acima de 90% de curar, mesmo quando ele está mais avançado.
Um médico salva muita gente, mas convive com as perdas. Como é perder um paciente?
É uma experiência muito difícil, ninguém aceita isso. O médico aprende a conviver com a perda porque, caso contrário, teria de abandonar a profissão. Especialmente um oncologista, porque o número de pacientes que morre é grande. É um momento de dor para todos. Lutamos junto com o paciente e, frequentemente, por períodos longos. Você vê muito o paciente, formam-se vínculos. Por outro lado, tentamos ver o sucesso daqueles que se curam. E, mesmo entre aqueles que não sobrevivem, procuramos fazer com que eles vivam mais tempo, tenham a chance de ver a formatura de um filho, um casamento. E que a qualidade de vida seja mantida da melhor forma possível até o fim.
É possível fazer boa medicina com a pressão de custos do sistema hospitalar?
A pressão é de médicos e hospitais mundiais. Nos EUA, o presidente passou uma lei de atenção à saúde que é questionada - e é possível que seja desfeita. A pressão de custos é universal. Podemos fazer boa ciência? Sim. Boa medicina? Também. Mas vamos ter de aprender a racionalizar os recursos. Às vezes, há a impressão de que é possível fazer tudo para todos, mas infelizmente a realidade não é essa. Há limitações. Precisamos lutar por mais verbas, mas também é preciso racionalizar o uso do que temos.


