Marcelo AlmeidaWagner, 12 anos, não consegue se adaptar aos programas de assistência social. Ele diz que as ‘‘tias’’ não deixam que ele ganhe o dinheiro que precisa levar para casaPara adequar os programas de atendimento social a crianças e adolescentes de rua, a Secretaria Municipal da Criança, em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), está elaborando um levantamento sócio-econômico e psicológico dessa população, que deve ser concluído no dia 6 de maio. Com base nos dados apurados, a intenção é melhorar o sistema de reinserção dessas crianças na sociedade e, principalmente, em suas famílias. Hoje, de cada dez crianças atendidas seis se tornam reincidentes, voltando à rua.
Para o Coordenador do Núcleo da Violência da Universidade Estadual de São Paulo, Roberto da Silva, o baixo resultado dos programas sociais está vinculado à associação desse trabalho com uma linha política. ‘‘O governo lança programas que servem apenas para a fachada, para mostrar primeiras-damas sendo caridosas. Por isso, não acertam no ponto nevrálgico dos problemas, que é as necessidades das crianças’’, diz o sociólogo, ele mesmo criança de rua até os 16 anos.
Entre os dados levantados pela pesquisa, está a contabilidade real do número de crianças que vivem ou circulam pelas ruas. Hoje, a Secretaria da Criança trabalha com um universo de 165 crianças em Curitiba, sendo que mais de 50% viriam da Região Metropolitana. ‘‘Apenas 10% dessas crianças vivem de fato nas ruas, porque perderam todos os vínculos familiares’’, diz a coordenadora de abordagem da secretaria, Jacinta Guinski. Outro dado importante da pesquisa é o levantamento da visão da criança em relação aos programas ofertados.
Dinheiro da ruaO menor Wagner, 12 anos, é um caso de menino que diz não se adaptar aos programas da secretaria. Segundo ele, as ‘‘tias’’ não deixam ele ganhar o dinheiro que tem de levar para casa. ‘‘Todo dia, depois que saio da aula, venho cuidar de carro e volto lá pelas 11h da noite para casa’’, conta. Ganhando R$ 15 por dia, ele afirma não ver vantagem em ser levado para uma das casas de abrigo da prefeitura. ‘‘Não sou menino de rua, mas trabalhador que ganha dinheiro para ajudar em casa’’, afirma.
No entanto, Jacinta diz que a diferenciação que o jovem faz é muito tênue. ‘‘Ele faz uma mendicância disfarçada’’, afirma. Para ela, esta criança deveria preencher o restante do dia que não está na escola com outras atividades que lhe proporcionassem melhoras nas condições de vida. ‘‘O problema de ficar na rua é que, aos poucos, ele pode ser atraído por outros rapazes envolvidos com drogas ou assaltos’’, diz.
Já Valter, 14 anos, é um claro exemplo de como os ‘‘atrativos’’ da rua podem ser prejudiciais. Viciado em drogas - solvente e crack -, veio de Foz do Iguaçu em busca de desintoxicação, numa clínica privada. ‘‘Fugi da casa porque queria um pouco de cheirinho’’, diz, referindo-se ao tinner. Chateado, ele diz que quer largar o vício, mas não está conseguindo. ‘‘Vim para Curitiba para deixar as drogas, mas as ruas daqui também tem drogas’’, constata.

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