Curitiba

Albari RosaExcluídoTrevisan, abandonado pela mulher, mora no prédio abandonado do FórumOs quatro ocupantes de uma sala do prédio onde deveria funcionar o Fórum de Curitiba guardam uma semelhança com a construção: todos foram abandonados. Renato Trevisan, 33 anos, vive naquele mocó (gíria de sem-teto para abrigo improvisado) há um mês e já se acostumou. ‘‘A gente pede esmola, cuida de carro, sempre dá um jeito para ninguém ficar com fome’’, conta o ex-auxiliar de enfermagem.
Trevisan faz parte da chamada população de rua, um contingente cada vez mais vísivel com a exclusão social que aumenta a despeito da estabilidade econômica. Não há estatística, só uma referência de quantos sem-teto perambulam pela cidade. Segundo a Fundação de Assistência Social (FAS), cerca de 2 mil pessoas foram atendidas desde o início do ano. Gente que foi encaminhada para albergue ou asilo e ganhou carteira de identidade.
Albari RosaImprovisaçãoWalter Mansur, 68 anos: ‘‘As pessoas me dão as coisas e vou vivendo’’
Do total de atendimentos, a FAS classificou 15% deles como ‘‘casos crônicos’’. Trata-se de pessoas que ficam pouco tempo em programas de reabilitação e voltam para a rua. A maioria absoluta (94%) é de homens e tem de 20 a 40 anos. De acordo com a fundação, 80% são dependentes de álcool ou drogas. Como Trevisan, que admite beber cachaça além da conta e cheirar cocaína quando consegue dinheiro para comprar um papelote.
O levantamento da FAS supõe que o vício é um fator de desagregação familiar. Das pessoas atendidas, 80% dizem ter parentes próximos, mas apenas 15% mantêm algum vínculo com a família. Para o sem-teto Walter Jobim Mansur, 68 anos, a mágoa com a ex-mulher e os seis filhos impede que ele retome o contato. ‘‘Eles estão bem, sabem que vivo aqui e não se importam comigo’’, desabafa o primeiro morador do mocó do Fórum inacabado, e único a ter colchão.
Tanto Jobim quanto Trevisan foram expulsos de casa após uma discussão violenta com suas respectivas mulheres. Abandonados pelos mesmos motivos, ambos agora dividem o mesmo abrigo, o mesmo prato, a mesma miséria. ‘‘Apesar de tudo, gosto daqui’’, diz o sem-teto mais velho, abraçado à garrafa de aguardente, companheira que o aquece no frio e o ilude na tristeza.
Estrutura - A prefeitura não tem política habitacional para os sem-teto. Já para atender a casos como os dos moradores dos mocós, viadutos e pontes da cidade, a FAS dispõe de 30 profissionais 24 horas por dia. O trabalho mobiliza educadores de rua e assistentes sociais, que fazem a triagem e dão encaminhamento a cada pessoa carente que aceite ser atendida. Entre albergues próprios e conveniados, há 300 vagas. Os programas de reabilitação são específicos. Em Campo Magro, na Região Metropolitana de Curitiba, por exemplo, existe uma fazenda para recuperação de alcoólatras. Enquanto isso, as iniciativas da própria sociedade completam e incrementam esse trabalho.

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