Jataizinho – A qualquer ameaça de tempestade, os 14 mil habitantes de Jataizinho (Região Metropolitana de Londrina) já ficam em estado de alerta. Isso porque cada chuva que atinge o município nesta época do ano pode gerar muitos transtornos à população, em especial àqueles que vivem às margens dos rios Tibagi e Jataizinho.
A água, que sempre vem de surpresa e com muita força, também carrega lembranças de anos anteriores, quando famílias não só perderam bens materiais, mas tiveram suas vidas transformadas. O que em um dia era tranquilidade no outro se tornou desespero e medo.
"Quando o tempo fecha, a gente fica agoniado. Com essas notícias pelo Estado então, a cabeça fica quente. Não dá para esquecer nada do que passamos. É só olhar para a parede com a marca da água até hoje", diz o aposentado João Batista da Silva, de 92 anos.
Ele mostra a parede manchada na área externa da casa, resultado da enchente do dia 26 de junho do ano passado. O volume do Rio Tibagi chegou a quase seis metros acima do nível normal e cerca de 30 famílias tiveram que deixar suas casas.
"Em 2011 foi ainda pior. A água veio de uma vez e não tive tempo nem de pegar meus documentos. Saímos correndo, apavorados, buscando abrigo. Perdemos tudo o que você possa imaginar", relembra Silva, que mora à beira do Jataizinho, na Vila Frederico, uma das áreas mais atingidas pelas cheias.
O relato de Silva é apenas um entre as mais de 80 famílias que vivem em risco eminente com as chuvas, pois residem em uma área inapropriada. Um morador há mais de 30 anos do bairro comenta que as construções das casas foram aterrando o ribeirão e que a cada ano a situação vem piorando.
Segundo Celso Biolada, presidente da Associação da Vila Frederico, "enquanto obras não são realizadas, a população vem tomando as próprias precauções. As famílias estão erguendo muros, fazendo o que dá", salienta.
É o caso do pedreiro Rodrigo Nogueira Filho, que há dois anos investiu em tijolos e cimento. Ele ergueu quase dois metros do muro que divide seu quintal da margem do rio. "Tudo por causa da água. Ninguém quer ter prejuízo", diz.

Soluções
Ainda de acordo com Biolada, existe a intenção de uma construtora em lotear o campo de futebol do bairro, conhecido como Brejão. "Fizemos uma abaixo-assinado para que isso não aconteça, pois a situação vai piorar. Além disso, queremos que a ponte de acesso ao nosso bairro seja reformada. Ela precisa de um alargamento para que a água tenha mais espaço para escoar", comenta.
Outra medida urgente e talvez a mais importante é a drenagem do Ribeirão Jataizinho na altura do Rio Tibagi até a zona rural Água das Flores. Tais medidas não irão evitar totalmente as enchentes, mas amenizarão os impactos. "De uns dois anos para cá tem piorado cada vez mais. Hoje, basta chover três dias seguidos para o rio encher", ressalta Reinaldo Cicero Martins, coordenador de Defesa Civil de Jataizinho.
Segundo ele, possivelmente uma audiência pública será marcada para a semana que vem, quando serão convidados a participar representantes do Ministério Público e das usinas Hidrelétrica Mauá, inaugurada em 2012 no Rio Tibagi, e Duke Energy, que possui instalações ao longo do Rio Paranapanema. "Queremos entender a logística dessas usinas para saber se há alguma influência em nosso município e também discutirmos possíveis medidas", acrescenta.

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