População dá presentes para a Cidade
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terça-feira, 10 de dezembro de 1996
Apolo Theodoro 
- Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida...
Filha de ingleses em fertilíssima relação com brasileiros de todas as bandas e estrangeiros de todos os quadrantes, Londrina está completando hoje 62 anos de nascida. E se aniversário é sinônimo de presente, com que presentear a Pequena Londres nesta data em que ela completa mais um ano de vida? Consultados a respeito do assunto, alguns londrinenses abriram o coração para falar do presente - hipotético ou não - que gostariam de dar para a Cidade nesta data querida. E eles lembraram de presentes que falam de saúde, saneamento, educação, cultura e, principalmente, empregos, muitos empregos.
Mas não só isso. Vejam o caso do gari José Reis Soares Guedes, 38 anos. O presente que ele daria à Cidade hoje seria uma oração para tocar o coração das pessoas de bom nível financeiro a fim de que elas criem emprego para os mais pobres. Morador do jardim União da Vitória (zona sul) bairro dos mais pobres e com fama de violento, José Reis gostaria que a sua oração também tivesse o poder de acabar com a marginalização e o racismo.
Quando procurava emprego, muita gente virou as costas pra mim por causa do lugar onde moro. Como lá tem fama de lugar violento, as pessoas acham que a gente é do mesmo nível, reclama o gari.
Outro que, se tivesse condições políticas e financeiras, daria indústrias de presente para Londrina é o representante comercial autônomo Valdete Custódio, 30 anos. Com todo mundo empregado e ganhando dinheiro, eu também ganho; com todo mundo feliz, eu também fico feliz. De uns 15 anos pra cá, Londrina começou a ficar ruim, a agricultura vai mal e estamos deficientes em indústrias, analisa Valdete, que mora na cidade há 27 anos.
O escritor e palestrante Flávio da Costa e Silva, 64 anos, é do Rio de Janeiro. Mas, como tem vindo dar palestras com frequência em Londrina, já se sente à vontade para presentear a cidade. Meu presente seria cultura e instrução comercial para as pessoas conseguirem bons empregos. Ninguém tem chance de trabalho se não estiver preparado e posicionado dentro do mercado, ensina o escritor.
Uma pessoa capacitada que pudesse dar um jeito no feroz trânsito da área central de Londrina, esse o presente do taxista Anésio Gibelato, 68 anos. Morando na cidade desde 1940 e com 31 anos no ofício, Gibelato chega a propor uma medida radical para solucionar o problema: abrir o Bosque no meio para facilitar a circulação dos veículos. Está muito difícil de trabalhar, é muito carro na rua, reclama o taxista.
Com 49 anos de idade e 45 de Londrina, o bilheteiro Rui Natal Lopes Passos abre o seu presente: asfalto em todas as ruas de Londrina para a cidade ficar mais bonita e as pessoas não sofrerem com o barreiro nos dias de chuva. Mas, antes do asfalto, o presente da professora Liana Maria de Oliveira, 44 anos, 21 morando em Londrina, seria levar a rede de esgoto para toda cidade. Eu não penso em beleza, penso em saúde.
Já a beleza é o componente principal do presente da artesã Rita de Cássia Alencar, 58 anos, 45 de Londrina. Observando que nunca viu a Cidade tão bonita como agora, seu presente é o desejo de que ela fique o ano inteiro assim. A cidade está linda, cheia de flores. Você pega a avenida Santos Dumont, está toda florida, linda; chega no centro, está todo florido, lindo. É assim que eu gosto de Londrina: bonita, florida e alegre, destaca a artesã, lembrando que tal beleza chama à atenção de quem chega na cidade.
Aumentar o número de empregos e capacitação profissional seria o presente do bancário Osvaldo da Silva, 39 anos, quatro de Londrina. Gerente da agência centro do Banco Itaú, Osvaldo observa que a abertura do mercado está requerendo das empresas e pessoas uma maior capacitação para enfrentar os desafios do futuro que já começaram. Ele arremata: Sem capacitação não tem empregabilidade, diz, contando que acabou de fazer um curso de complementação acadêmica na área de economia na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.
As balconistas Vanderléia Miranda, 26 anos e Josiele Vanessa Reis Moreno, 18 anos, ambas nascidas em Londrina, batem na mesma tecla: emprego. Vanderléia diz que, se pudesse, seu presente seria abrir uma indústria para dar emprego pro povo e, com isso, deixar muita gente e a cidade inteira feliz. Já Josiele, desempregada, disse: Meu presente seria um prefeito bom que criasse empregos.
Escolas e mais escolas para as crianças passarem o dia inteiro estudando e aprendendo ofícios diversos, tudo gratuito, esse o presente dos empresários Domingos Aiex e Dalcy Mendes Santos. Morando em Londrina, respectivamente, há 38 e 46 anos, os dois empresários entendem que só assim o País conseguirá romper a barreira de miséria que vem marginalizando milhões de brasileiros.
O futuro do Brasil são as crianças. Então precisamos investir nelas, aposta Aiex, lembrando das dificuldades por que passam os jovens da zona rural quando têm que aprender alguma nova técnica. O Brasil é o país que mais teve planos econômicos. Nenhum teve continuidade nem trouxe solução por um único motivo: não temos escolas para toda a população. O Brasil só vai sair da miséria no dia em que não tiver uma só criança sem escola. É nisso que o mundo rico investe, por isso melhorou. Sem escola não tem solução, não tem plano que dê certo, destaca Dalcy.
Mas o presente de Dalcy vem mais recheado. Ele quer que os barracões da Sociedade Rural do Paraná - Eles são usados de 10 a 15 dias e no restante do ano ficam fechados - sejam utilizados como escola. Com isso, poderíamos tirar da rua todas as crianças de 7 a 16 anos. Lá, elas poderiam aprender a lavar e a passar roupa, limpar casa, coisas assim. Se a pessoa não sabe fazer nada, como é que vai arranjar trabalho? Se não dermos escola para as crianças, pode morrer fazendo discurso que não resolve, acredita Dalcy.
Como se viu, presente foi o que não faltou para a antiga Capital Mundial do Café que todos querem ver tão altiva e pujante tal qual foi. E antes que alguém reclame que faltou alguma coisa, lá vai:
- E pra Londrina, nada!
- Tudo!
á- Então, como é que é?
- É! É pique, é pique, é pique, é pique, é pique... É hora, é hora, é hora, é hora... Rá, tim, bum: Londrina, Londrina, Londrina!


