População, a grande vítima da greve
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segunda-feira, 23 de outubro de 2006
Fernanda Borges<br>Reportagem Local 
Como você reagiria se a coleta de lixo deixasse de passar na sua casa por dois meses? E se o banco onde você efetua diversas transações ficasse de portas fechadas por semanas? Com certeza as dificuldades seriam inúmeras, mas, quando o assunto é saúde, o problema se torna ainda pior.
A falta de atendimento médico, por conta da greve dos servidores municipais, está colocando em risco a vida do morador do Jardim Felicidade (Zona Norte) Adilson Barbosa da Silva, 39 anos. Aposentado por invalidez, Silva sofre de uma miocardiopatia grave, o que o mantém na fila de transplantes do Sistema Único de Saúde (SUS) para conseguir um novo coração.
Silva, que também é diabético, precisa tomar doze tipos de medicamentos por dia. Destes, apenas quatro ele recebe gratuitamente do município, mas, desde o dia 1º de agosto - quando a Unidade Básica de Saúde (UBS) Novo Amparo/Moema fechou as portas por conta da greve dos servidores - o aposentado não consegue ter acesso aos remédios.
''Desses quatro remédios que eu preciso tomar, um deles é diurético, outro é para o batimento cardíaco, outro para afinar o sangue e um para o fígado. Como não estou tendo como pegar no posto, não estou tomando todo dia, para que os que eu ainda tenho durem mais tempo. Amanhã já não tenho mais nada, não sei como vou fazer'', lamentou.
As pernas inchadas, por conta da retenção de líquidos e o mal estar, revela a falta que os medicamentos estão fazendo para o aposentado, que mora numa pequena casa de dois cômodos, com a mulher e dois filhos. Ele contou que chegou a ''infartar'' um dia, quando o posto ainda estava aberto, e que se não fosse o atendimento recebido pelo médico da UBS, ''poderia ter morrido''.
''O médico da família tinha que vir aqui em casa uma vez por mês mas já fazem seis meses que ninguém vem aqui. Tem dia que é só por Deus, sinto uma batedeira no peito e parece que vou morrer mesmo. Meu Deus do céu, ninguém vê que a gente precisa do posto? Meus filhos também precisam. Eu não tenho nem como sair de casa com a perna assim'', comenta Silva, se queixando de dores.
Segundo o advogado e professor de Direito do Trabalho na Universidade Estadual de Londrina (UEL), César Bessa, tanto o direito de greve quanto o direito de reajuste salarial e o direito da preservação da dignidade humana são legais perante a Constituição Federal. ''O que tem que valer são os princípios da Constituição e aqui acaba existindo um choque. A greve é o último recurso a ser utilizado pelo trabalhador. Ela só ocorre quando não há nenhum tipo de negociação. Nesse caso, a população tem que se revoltar, pressionar, porque a cidade é dela também. As leis só se constituem quando há pressão social'', disse Bessa.
O grevista João César Rossini, professor de Educação Física da rede municipal de ensino, não dá aulas desde o início da greve dos servidores. Segundo ele, na escola onde trabalha, só ele acatou o movimento. ''Para mim, se for para fazer alguma coisa que possa trazer resultados, ela deve ser feita de verdade, por isso optei por participar da greve, mas só estou no movimento porque não temos outra alternativa'', disse.
Professor de quase 300 alunos, Rossini disse que sente por saber que eles não estão tendo aula de Educação Física, porém, acredita que aderindo a greve, ainda está ''ensinando'' alguma coisa para os jovens. ''Também estou lutando por eles. É uma luta cidadã, por um salário melhor, por melhores condições de trabalho. Na nossa escola não temos quadra coberta e a quadra é toda esburacada. Esses dias estive na escola e revi meus alunos. O coração bate forte, mas sei que o que estou fazendo é certo''.


