Pontes e estradas ruins isolam famílias
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de novembro de 1998
Alexandre Sanches 
Crianças e adolescentes de uma comunidade rural do município de Ortigueira (117 km ao sul de Apucarana) correm o risco de perder o ano letivo por não terem condições de ir à escola. As principais causas do problema são as estradas danificadas pelas chuvas e as pontes em situação precária, que não permitem o tráfego dos carros que transportam escolares.
A comunidade é o assentamento Libertação Camponesa - antiga Fazenda RR -, onde vivem cerca de 370 famílias. Além da precariedade das estradas e das pontes, a maior dificuldade dos moradores é não saber a quem recorrer para buscar a solução do problema. É que a localidade fica praticamente na divisa de Ortigueira com Tamarana (65 km ao sul de Londrina).
As pontes da antiga Fazenda RR, segundo os moradores, foram destruídas há pelo menos três anos e eram o acesso à área urbana de Ortigueira. As famílias têm mais facilidade de locação até Tamarana, mas reclamam que encontram alguns obstáculos. Antes, quando a gente era sem-terra, era atendido no posto de saúde de Tamarana. Agora, temos que comprovar que somos lá, comenta um dos líderes da comunidade, Pedro da Silva Bonfim, 40 anos.
Bonfim diz que do lado de Ortigueira não há como esperar por solução a curto prazo, pois a prefeitura não teria recursos para fazer as melhorias necessárias. Queremos que o prefeito arrume as três pontes - duas delas sobre o Rio Apucarana Grande - e readeque as estradas de acesso à BR-376, próximo ao Bairro dos França, informa.
Na opinião dele, se a prefeitura consertar a estrada facilitará inclusive o escoamento da produção agrícola e pecuária, além de permitir que o ônibus escolar chegue até a fazenda, mesmo em dias de chuva. Mas os moradores têm, também, outras necessidades, conforme Bonfim. Nós reivindicamos também condições para educação, saúde e telefone público.
Em uma das pontes, com extensão de 42 metros sobre o Rio Apucarana Grande, as famílias são obrigadas a fazer malabarismo. As crianças em idade escolar são as que mais sofrem. Diariamente, elas se arriscam a atravessar pela pinguela que a própria natureza construiu no local com árvores. É que os troncos foram trazidos pelas correntezas, durante cheias que ocorreram no Apucarana Grande no passado, e ficaram presas nos pilares de concreto. Com o rio baixo, é possível atravessar a pinguela a pé, mas com a água chegando até a cintura.
Mas para amenizar o problema, crianças que estudam da 1ª à 4ª séries estão tendo aulas em barracões improvisados, por professores do próprio assentamento. As aulas não são das melhores. Mas pelo menos nossas crianças podem frequentar uma escola, contenta-se o líder. Outros cerca de 80 escolares frequentam escolas com turmas de 5ª à 8ª séries.
Há moradores, entretanto, que estão ilhados pelo rio na margem oposta a da sede do assentamento. É o caso de Ivonete Correia Liber dos Santos, 23 anos. Ela e a família estão na comunidade há 3 meses. O problema é que durante a chuva do mês passado nós ficamos ilhados vários dias. As crianças não puderam estudar. Segundo ela, quando a família vai à cidade encontra dificuldades para atravessar o rio com as mercadorias que compra. A situação fica mais crítica quando as crianças acompanham os pais.
A lavradora Rosana Martins, 18 anos, se viu em apuros no final de setembro, quando começaram as chuvas fortes. Prestes a dar à luz, foi obrigada a se mudar para a casa da mãe, na sede da antigas Fazenda RR. Minha filha nasceu e nós ficamos alguns dias lá até a água baixar. Para atravessar o rio, meu marido carrega a criança. A sorte de Rosana é que um médico de Ortigueira visita a comunidade a cada 15 dias para consultar principalmente as crianças.
Outra moradora, Francisca Siqueira Batista, 50 anos, lembra que recentemente teve que ser socorrida por moradores vizinhos, quando teve problemas de coluna. A estrada é cheia de buracos e não dá para andar de carro. Fui carregada por vizinhos até a sede da fazenda e de lá fui levada de trator ao médico. É um risco que a gente corre por aqui, desabafa. Os moradores temem que alguém venha a morrer por falta de socorro, inclusive porque na região há cobras venenosas.


