Ponte faz Guaíra esquecer o passado
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de janeiro de 1999
Lúcio Flávio Moura Especial para a Folha 
Inaugurada há exatamente um ano, em 24 de janeiro do ano passado, a única ligação viária entre o Sul e o Centro-Oeste do País e a maior ponte fluvial do País - a Ayrton Senna - está provocando o renascimento de Guaíra (232 km ao norte de Foz do Iguaçu) e ajudando Salto del Guairá, capital do departamento (equivalente à Estado) de Canindeyú, leste do Paraguai, a se consolidar como um diversificado e movimentado centro de compras.
O reflexo mais imediato do funcionamento da nova ponte foi a grande valorização imobiliária e o incremento às vendas do comércio de Guaíra. Pelas ruas calmas da cidade podem ser observadas muitas obras. Ao todo, cerca de 200 construções. De fim de linha, passamos a ser pólo regional, diz Luiz Segundo Giacomin, secretário municipal de Indústria e Comércio.
As lojas de material de construção da cidade comemoram o acréscimo médio de 15% nas vendas. Algumas já pensam em expansão. Moradores do lado paraguaio da fronteira e de cidades sul-matogrossenses formam o grupo dos novos clientes. Sem a balsa, tudo ficou mais fácil. Se não fosse esta recessão, as vendas teriam aumentado ainda mais, explica Elói Ari Pianna, que já comprou terreno para ampliar a área de sua loja no centro da cidade.
Ney de SouzaRicardo NorvilaGanhamos novos clientes até do MSHibernada durante quase duas décadas, desde que o Lago de Itaipu submergiu Sete Quedas - atração que levava milhares de turistas à cidade todos os anos, Guaíra parece que não estava preparada para a retomada do crescimento. Especialistas concordam que a oferta imobiliária local é muito inferior a procura.
Se construir e souber divulgar, vende tudo, diz Carlos Alberto Delfino Leite, sócio-proprietário da Imobiliária Diba, que atua há 18 anos no setor. O preço de imóveis para a venda aumentaram em até 200% em um ano e os aluguéis cerca de 100%.
O Residencial Veneza é o símbolo desta nova fase. Antes de ficar pronto, todos os 16 apartamentos e os quatro duplex do edifício já foram negociados. A cidade tem 400 pedidos de financiamentos para imóveis. É uma coisa impressionante, informa José Aparecido Correia, também dono de imobiliária.
Ney de SouzaElói Ari PiannaAumento nas vendas chega a 15%A filial da rede de lojas Pernambucanas teve um aumento de vendas entre 20% e 30% na temporada pós-ponte. Aos sábados, dia de maior movimento, os moradores dos municípios de Mundo Novo, Iguatemi e Naviraí formam a maioria da clientela.
Como 98% das vendas são feitas pelo cartão de crediário da loja, a gerência do estabelecimento acredita que o atual nível de movimento se mantenha por algum tempo. Até 1997, a loja pensava em cortar pessoal. Agora, esquecemos esta possibilidade, conta Ricardo Norvila, primeiro auxiliar de gerência.
O turismo também ganhou vida nova. Além de centralizar o crescente movimento de ecoturistas que procuram a região para conhecer o mais novo parque nacional do Estado, o da Ilha Grande (78.875 hectares), a ponte aqueceu o turismo regional e trouxe a Guaíra mais paraguaios e sul-matogrossenses.
Ney de SouzaSuely FrareAgência investimento no ecoturismoA unidade local da rede de hotéis Deville, que possui 67 apartamentos, registrou um aumento de 10% em 1998 comparando com os números de 1997. Em outubro, o hotel encerrou uma série de obras, que incluiu trocas de aparelhos de TV, nova central telefônica, troca do carpete e do mobiliário. O investimento foi de R$ 200 mil.
Deveremos crescer ainda mais em 1999. Continuaremos investindo na estrutura do hotel e divulgando a cidade junto a agências do Mato Grosso do Sul, nosso novo mercado, adianta Domenciano Rodrigues Neves, gerente do hotel.
O Deville também comemora o movimento noturno do hotel. Com cozinha reequipada, o restaurante ganhou clientes regulares do lado paraguaio da fronteira e das cidades sul-matogrossenses mais próximas. A maioria vêm a Guaíra para saborear o pintado na telha, adotado como prato típico da cidade.
Além de apreciar a culinária local, os paraguaios também estão vindo a Guaíra para ganhar dinheiro e gerar empregos. A Cavel Náutica injetou R$ 2,5 milhões na economia local, criou 30 novos postos de trabalho e se estabeleceu no município para produzir 17 modelos de lanchas. Com um show-room e uma marina para 140 barcos (ainda não concluída), a empresa pode ser a primeira de um futuro pólo de turismo de lazer náutico.
Ainda sem valor definido, o investimento mais aguardado no setor turístico é um hotel-fazenda de luxo, que deve começar a ser construído ainda este ano, próximo à cidade. É coisa grande. Só conseguimos convencer os empreendedores depois que a ponte ficou pronta, disse à Folha uma fonte da prefeitura local.
Proprietária de uma recém-criada agência de viagens, especializada em turismo rural, Suely Martins de Oliveira Frare, 37 anos, ex-secretária municipal de turismo e filha de pioneiros, resume o sentimento da comunidade. Quando as Sete Quedas desapareceram, a cidade ficou sem saber o que fazer. Agora, parece que Guaíra reencontrou seu rumo.


