Ponte Amizade - Ladrões dominam a fronteira
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 1997
Edna Mendes 
Foz do Iguaçu
Ney de SouzaPerigo constanteLadrões agem em grupos e escolhem as vítimas aleatoriamente, sem distinguir jovens ou idosos, homens ou mulheresAtravessar a Ponte da Amizade para fazer compras em Ciudad del Este, no Paraguai, se tornou uma aventura. Pelo menos quatro assaltos contra turistas e sacoleiros são praticados diariamente nos 552 metros da ponte sobre o Rio Paraná. Mas a própria polícia estima que este número seja muito maior.
Mesmo as pessoas que atravessam a ponte de carro não conseguem fugir das quadrilhas - geralmente formadas por menores - especializadas em roubar turistas e sacoleiros. Quem cruza a ponte de carro é obrigado a fechar os vidros para evitar assaltos, tendo que suportar uma temperatura que, nesta época do ano, nunca é inferior a 35 graus.
Os roubos de mercadorias, jóias e carteiras na Ponte da Amizade estão fora do controle das polícias brasileira e paraguaia. Basta observar mais atentamente para verificar quem são os ladrões e como eles agem.
Ney de SouzaMaria Inês foi assaltada e ficou sem o cordão de ouro
Não há números oficiais, mas a Polícia Civil estima que aconteçam, em média, de quatro a seis roubos por dia. A maioria das vítimas não registra queixa nas delegacias de Foz do Iguaçu. Só faz isso quem teve os documentos roubados junto com o dinheiro ou mercadoria.
Os ladrões agem em grupos e escolhem as vítimas aleatoriamente, sem distinguir jovens ou idosos, homens ou mulheres. Em menos de 30 minutos de permanência na Ponte da Amizade, no início da semana, a reportagem da Folha presenciou um assalto, praticado por pelo menos três adolescentes.
Um deles subiu na grade de proteção que separa a pista da passarela, escolheu a vítima, uma mulher de aproximadamente 35 anos, e avisou seu companheiro que estava logo atrás. O rapaz, que tinha aproximadamente 15 anos, arrancou o cordão de ouro do pescoço da vítima e saiu correndo, se misturando à multidão. Ele não foi preso.
O grande fluxo de pessoas na ponte sempre dificulta a identificação e prisão do autor do roubo. Minutos depois, a polícia paraguaia prendeu o integrante da quadrilha que estava em cima da grade de proteção escolhendo o alvo para o roubo. Ele foi levado pelos policiais paraguaios para averiguações.
Ney de SouzaValdecir Vasco dos Santos teve as compras roubadas
A vítima do assalto presenciado pela Folha foi a turista Maria Inês Kassan, de Apucarana. Ela ainda gritou, mas o ladrão, que fugiu entre os carros, desapareceu em poucos segundos. No pescoço de Maria Inês ficou uma marca vermelha, resultado da força utilizada pelo ladrão para arrebentar o cordão de ouro. Muito assustada com a ação rápida, ela contou que foi alertada para o perigo. Tinham me avisado para não usar jóias, mas não achei que a situação estivesse desse jeito. É a primeira vez que venho aqui e já sou assaltada de chegada. Estou muito assustada, desabafou.
As polícias brasileira e paraguaia têm autonomia para atuar na Ponte da Amizade, mas é raro a presença de policiais brasileiros. A polícia não aguenta ficar lá por causa do sol e do calor, que é muito intenso nesta época do ano, disse um policial federal que não quis ser identificado.
Há ainda um jogo de empurra-empurra entre as polícias Civil, Federal e Rodoviária Federal para decidir de quem é a responsabilidade pela segurança na ponte. A Polícia Federal informou que a responsabilidade é da Polícia Rodoviária porque a ponte faz parte da BR-277. A Polícia Rodoviária alega que sua responsabilidade limita-se ao trânsito. Já a Polícia Civil afirma que a responsabilidade é da Polícia Federal.
A Foztur (órgão oficial de turismo em Foz do Iguaçu) organizou recentemente um encontro para discutir providências com a finalidade de coibir roubos na Ponte da Amizade. Participaram as polícias Federal, Militar e a Receita Federal.
Um dos assuntos discutidos foi a atuação das secretarias municipais da Criança e de Desenvolvimento Social, juntamente com o Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente, Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente e Polícia Civil, para acompanhar a presença de menores na Ponte da Amizade. A Secretaria de Obras faria a manutenção e instalação de telas nas cabeceiras da ponte.
Segundo o diretor de Marketing da Foztur, Luiz Antonio Rolim de Moura, as discussões sobre a falta de segurança na Ponte da Amizade devem ser aprofundadas em 1998. Precisamos de ações de integração para elaborar operações especiais como, por exemplo, as que são feitas nas estradas, disse.


