O veterinário aposentado Helder Paiz Machado está esperando que 688513 volte para casa. Assim como um ser humano se distingue pelo seu número de identidade, um pombo-correio também. Morador de Florianópolis, Machado cria pombos há três anos e perdeu um dos seus animais mais experientes no dia 20 de agosto.
''Era uma etapa do campeonato de criadores aqui de Florianópolis, os pombos estavam em Jacarezinho e foram soltos no dia 20, mas o mau tempo acabou fazendo com que alguns se perdessem'', disse ele, que começou a criar as aves por curiosidade. ''Sempre me fascinou como elas conseguem se localizar mesmo percorrendo grandes distâncias.''
O pombo de Machado foi parar em Tibagi, cidade de 19 mil habitantes na Região Central do Paraná. O advogado e servidor público Jorge Bittencourt encontrou o animal no dia 24 de agosto. ''Cheguei em casa e vi o pombo na calçada. Percebi que não era um bicho comum. Ele é bem mansinho, deixa a gente aproximar. Então tratei de acolhê-lo antes que minha cachorra quisesse pegá-lo'', conta.
Em seguida Bittencourt viu anilhas com código na pata do animal. Curioso, o advogado resolveu investigar. ''Um amigo do trabalho é fascinado por ornitologia (estudo das aves) e me ajudou. Nós pesquisamos na internet e encontramos o site da Federação Columbófila Brasileira.'' A entidade integra criadores de pombos no País. Há 36 paranaenses cadastrados na federação.
Após entrar em contato com a entidade e passar o código do pombo, Bittencourt recebeu uma ligação do dono da ave, Helder Machado, de Florianópolis. ''Ele me pediu para cuidar do pombo por uns dias e soltar quando o tempo estiver bom aqui e lá''. Hoje, se não houver imprevistos, o pombo deve ser liberado para retornar a Florianópolis. ''São aproximadamente 500 quilômetros e, se tudo der certo, ele percorre isso em seis horas. Ele já chegou a voar 650 quilômetros, de Jaguarão, no Rio Grande do Sul, até Florianópolis'', relata Machado.
Além de cuidar do animal, Bittencourt chegou até a nomeá-lo: Desidério. ''É o nome do primeiro carteiro da cidade. Coisa de cem anos atrás ele andava pela região a cavalo para entregar correspondências'', conta o advogado.
Desidério não foi o único que se perdeu na corrida de Jacarezinho. ''Hoje mesmo (anteontem) chegaram outros dois pombos que saíram no mesmo dia. Tem outro pombo que está no Paraná, foi encontrado em Telêmaco Borba, e pertence a um dos mais antigos criadores aqui de Florianópolis'', afirmou Machado.
As duas aves representam uma das mais antigas formas de comunicação e está praticamente extinta atualmente. Só é usada em competições ou por saudosismo. A Bíblia narra que Noé só deixou a sua arca após uma pomba, que ele havia enviado, retornar com uma folha de oliveira no bico. Helder Paiz Machado não está em nenhuma arca, mas mesmo assim espera que Desidério ou 688513 retorne para casa.

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