Enquanto as autoridades discutem formas de controle e até de erradicação das pombas que habitam várias regiões de Londrina, há quem coloque a mão no bolso para comprar exemplares da espécie e até comida para elas. Em uma loja que comercializa aves, rações e produtos veterinários no Centro, pombos-leque, pombos-coleira e pombos-correio aguardam em grandes gaiolas clientes interessados em pagar de R$ 10,00 a R$ 25,00 para levar um deles para casa. As pombas silvestres ou amargosas, que estão em todos os lugares e não dão trégua para o londrinense, também aparecem por lá, interessadas nos restos de comida dos parentes mais ilustres.
O proprietário da loja, Osvaldo Koiti Kato, que comercializa as aves há 13 anos, informa que vende de 20 a 30 pombos por mês, e que a procura não caiu nos últimos anos, com a infestação das amargosas no espaço urbano. ''Muita gente compra como ave ornamental, para ter em casa. Também tem o pessoal das universidades, que compra para fazer pesquisa ou dar aulas, e ainda vendemos para soltar em festas. Daí tem que ser aquelas que voam bastante e bem branquinhas, para simbolizar a paz'', detalha Kato, que compra as aves de vários criadores.
Segundo o comerciante, apesar de ter se transformado em figura indesejada por muitos londrinenses, a ave mantém lugar cativo no coração de alguns. ''Tem gente que é fanática por pomba, nem se incomoda com este monte delas que está pelas ruas e até trata delas'', afirma. Entre as admiradoras da ave que não pensam duas vezes antes de lhe oferecer alimentos está Maria, uma cliente da loja que preferiu não revelar o sobrenome. Ela mora em uma casa provida de um grande quintal, na Zona Leste, onde abriga, entre outros animais, dois cachorros e 250 canários-do-reino.
Duas vezes por dia, Maria junta os restos de ração e alimentos de seus outros bichos e deixa disponível para as cerca de 90 amargozinhas que se empoleiram famintas no muro do quintal. ''Pra quê matar? A culpa é do homem, que criou, criou, e depois soltou tudo por aí'', defende ela.
No Cemitério São Pedro (Centro) as aves também encontram admiradores e comida fácil. Com frequência aparece alguém com um punhado de milho, que elas devoram em poucos segundos. Algumas centenas habitam o lugar, e estão tão domesticadas que vários funcionários e frequentadores do local não têm a menor dificuldade para pegar quantas delas quiser. ''De vez em quando aparece alguém querendo levar, daí a gente vai lá e pega. Uma vez veio uma mulher e levou bem umas 30 para sua fazenda'', revela o pedreiro João Abucci, funcionário do cemitério há mais de 30 anos.
Abucci é contra o abate das aves. ''Dizem que elas provocam doença, mas eu estou aqui há todo este tempo e nunca tive problema. Aqui ninguém ataca elas não, só damos comida'', defende.
O coordenador do curso de ciências biológicas do Centro Universitário Filadélfia (Unifil), João Antonio Cirino Vequi, esclarece que apesar da abundância, as pombas que vemos pelas ruas não servem para uso em aulas práticas ou como objeto de pesquisa. ''Para este fim (pesquisa) é preciso que a população seja bem selecionada e definida em relação a raça e linhagem, garantindo uma resposta uniforme do estudo'', explica.
De acordo com o professor, na rua cada animal passa por diferentes situações, comprometendo a uniformidade populacional. ''Uma barata de bueiro, por exemplo, não pode ser usada em laboratório porque carrega uma série de patógenos que pode ser prejudicial a quem manipulá-la.'' Segundo o coordenador, a instituição adotou medidas para sacrificar o menor número possível de animais. ''Pombas, por exemplo, não sacrificamos. As rãs e os camundongos utilizados são obtidos em nossos ranário e biotério'', esclarece.

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