Poluição toma conta dos rios em Foz
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de setembro de 1997
Antônio França Foz do Iguaçu 
Ney de Souza
Pedindo socorroCascata de esgoto doméstico na foz do Rio Boicy e rastro deixado pelo material poluente; nenhum rio que corta a área urbana está salvo da degradação
A bacia hidrográfica de Foz do Iguaçu - quatro rios e dois afluentes - está totalmente poluída e nem mesmo a Reserva do Tamanduá, que abastece a cidade, está livre da degradação ambiental. Somente o Rio Boicy, que corta todo o município, recebe cerca de 500 toneladas de lixo e esgoto por mês, o equivalente a cinco dias de toda coleta de lixo urbano da cidade.
A degradação vai além da área urbana e até os rios que cortam o Parque Nacional do Iguaçu sofrem com a poluição, principalmente de agrotóxicos. Segundo um levantamento feito pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), dos seis rios que cortam o parque, cinco estão em péssimas condições de conservação. Todos eles sofrem com depósitos de lixo, pocilgas (criação de porcos) e erosão provocada pelo cultivo de diversas lavouras nas margens dos rios, diz o diretor do parque, Julio Gonchoroski.
Nenhum dos rios que cortam a área urbana está salvo da degradação. Os rios Almada, Boicy e Monjolo recebem lixo de toda espécie. Estima-se que 800 toneladas de detritos são jogados mensalmente nesses rios. Esse volume equivale à coleta diária de lixo de uma cidade de grande porte como Campinas (SP) que tem cerca de um milhão de habitantes.
Depósito de lixoA população ribeirinha despeja desde esgoto doméstico, até sofás, mesas e cadeiras que não são mais utilizados. Nos últimos dez anos, além de receber o esgoto coletado na cidade, esses rios sofreraram nas mãos de políticos inescrupulosos que enfiaram famílias para morar às suas margens e esse é o resultado, diz o jornalista Adelmo Muller, presidente da Associação de Defesa e Educação Ambiental de Foz do Iguaçu (Adeafi)
Muller, que move seis ações judiciais contra a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e Prefeitura por causa da poluição ambiental, afirma que Foz do Iguaçu só não corre o risco de ficar sem água potável porque pode implantar um sistena de estação flutuante de coleta de água no Rio Paraná abaixo da Usina de Itaipu. Pelo grande volume de água, o Rio Paraná tem a sua autopurificação, constata Muller.
Nem o Rio Tamanduá e seus afluentes (Tamanduazinho e Arroio Dourado), que fazem parte do Reservatório de Abastecimento da Sanepar, estão livres da degradação. Quarta-feira, a Folha constatou que o nível do poluição nesses rios estava acima dos padrões exigidos. A poluição, segundo os técnicos da Sanepar, era de 15% e exigia muito trabalho para purificar a água que seria distribuída para 48.800 residências. Em dias de chuva, a situação é ainda mais grave e esse nível chega até a 500%, de acordo com a própria Sanepar.
Grandes rios, como o Paraná e Iguaçu, também não estão livres da poluição. Os rios que cortam Foz do Iguaçu são seus afluentes. Um dos exemplos é uma imensa cascata de esgoto doméstico e de lixo formada pela foz do Rio Boicy, que deságua no Rio Paraná, bem próximo da Favela da Marinha.
Oficialmente, somente o Rio Paraná está autorizado a receber o esgoto produzido no município. Ainda assim, somente 2% do que é despejado nesse rio é tratado. Desrespeitando a lei, todos os rios que cortam a cidade têm ligações clandestinas de esgoto, muitas feitas por loteadoras e construtoras. O Iguaçu ainda é o menos poluído por causa da sua oxigenação natural provocada pelas queda das Cataratas. Ainda assim, registram-se níveis preocupantes de degradação, afirma o presidente da Adeafi.
InvestimentosO prefeito Harry Daijó (PPB) lembra que o estado degradante dos rios que cortam a cidade não aconteceu do dia para a noite. Passamos vários anos sem nenhuma política ambiental. Essas áreas nunca receberam os investimentos devidos e foram ocupadas por famílias. Não vai adiantar o trabalho de despoluição, se não promovermos um serviço de conscientização, afirma o prefeito.
O prefeito se mostra preocupado com o atual estágio de poluição. Para se ter uma idéia, o antecessor, Dobrandino da Silva (PMDB), investiu cerca de US$ 16 milhões na área ambiental. Daijó pretende destinar cerca de US$ 68 milhões nos quatro anos de sua administração. Quase todo o dinheiro vai para drenagem dos rios poluídos e preservação de fundo de vales.
O ecologista Jackson Lima, um dos maiores defensores da preservação ambiental em Foz do Iguaçu, afirma que os rios estão em fase terminal e está na hora de reagir. Viramos as costas para os nossos mananciais e agora assistimos ao resultado dramático, afirma.


