Um estudo realizado por um biólogo no Litoral do Paraná sinaliza que a contaminação nas águas pode estar deixando doente a população de golfinhos da região. Utilizando a fotoidentificação, o pesquisador Marcos César de Oliveira Santos descobriu que botos marinhos (Sotalia guianensis) da região da baía de Paranaguá apresentavam uma doença de pele, associada, por estudiosos, à poluição.
A descoberta aconteceu por acaso. Santos realizava um estudo, desde de 1996, com a mesma espécie de botos no estuário de Cananeia, no Litoral de São Paulo. Extendendo sua pesquisa para o litoral norte do Paraná, ele se deparou com a imagem de animais com grandes lesões no corpo. Um levantamento mais detalhado apontou que 17,4% dos botos fotoidentificados apresentavam a micose.
O trabalho contou com a ajuda da veterinária holandesa Marie-Françoise Van Bressen, especialista em doenças de pele do Centro de Pesquisa de Cetáceos do Peru. Em sua pesquisa, ela fez um raio-x de onde esse tipo de patogenia aparece. Segundo Santos, Marie-Françoise descobriu que essa situação acontece em áreas próximas a portos e fazendas de criação de camarões.
Conforme explica o biólogo, a contaminação se daria por causa de materiais como óleo, mas também pela chamada água de lastro, que é expelida dos navios que atracam no porto vazios e podem trazem organismos vivos e patogênicos de outras regiões do planeta. Já a criação de camarão, muitas vezes ilegal, além de introduzir uma espécie exótica ao ambiente, também pode trazer micróbios estranhos às espécies que ali vivem.
Na mesma linha da pesquisa de Santos, a doutoranda em Zoologia e coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação de Mamíferos e Tartarugas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Camila Domit, tem trabalhado, desde 2003, com os animais da região. Há três anos, ela ampliou a pesquisa para toda a região do Complexo de Paranaguá. Além do acompanhamento de animais vivos, a pesquisa também monitora as condições dos bichos encontrados mortos na região.
"Há cerca de um ano e meio, percebemos o aparecimento dessas manchas nos animais. Também entramos em contato com vários pesquisadores do tema. Além da Lobomicose, observada no estudo de Santos, detectamos outras possíveis doenças de pele como o poxvírus e alguns tipos de ulcerações", explica. O curioso, no levantamento da estudiosa, é que os animais infectados não se encontravam na baía próxima ao porto, mas sim nas Unidades de Conservação do complexo, as baías de Guaraqueçaba e Pinheiros.

Fazendas de camarão
Enquanto Santos concentrou as observações em dois períodos, janeiro e junho, os pesquisadores coordenados por Camila no Centro de Estudos do Mar acompanham os animais durante o ano todo. Ela explica que menos de 10 animais vivos e cerca de 15 encontrados mortos tinham as lesões na pele. Para Camila, ainda não é possível fazer uma associação direta do problema com a contaminação das águas pelo porto ou por fazendas de camarão.
"Primeiro, nos perguntamos como os animais das Unidades de Conservação tem a doença e os que vivem perto do porto, não. Além disso, eu, que trabalho na região há 6 anos, não tenho conhecimento das fazendas de camarão. O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) também não tem nenhum registro. Ainda é cedo para apontarmos qual o motivo do aparecimento do problema", afirma.

Conclusão
A pesquisadora espera concluir os estudos até o final do ano, quando acredita que terá um panorama completo da distribuição dos animais na região, áreas de concentração, presença de filhotes, além das áreas onde foram identificadas a presença das doenças de pele, a porcentagem da população e a sazonalidade com que elas aparecem.
Já o trabalho de Santos entrará, a partir da metade do ano, em uma segunda fase. Com um equipamento importado da Nova Zelândia, pedaços da pele e camada gordurosa de animais vivos serão retirados para análise em laboratório.

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