Poluição leva à morte rios de Curitiba
Mônica Kaseker
Marcelo AlmeidaDespoluindoPenteado, removendo detritos em frente à sua casa: não sabia que a valeta era o rio AtubaCaso alguém perguntasse se os rios de Curitiba estão mortos, a resposta poderia ser outra pergunta: que rios? Tecnicamente a definição de um rio sem vida pode variar, mas aparentemente eles estão mortos, sim. Mau cheiro, ausência de vegetação natural, água escura e muita sujeira são características comuns ao Belém, Bacacheri, Atuba, Iguaçu, Barigui e Passaúna, os principais rios da cidade.
Cerca de 70 mil pessoas vivem às margens dos rios de Curitiba e grande parte delas despeja esgoto e lixo dentro das valetas, como dizem os próprios moradores. Além da questão social das ocupações, falhas na coleta de lixo e na rede de esgoto e principalmente falta de educação ambiental agravam o problema. A recuperação dos rios custa caro e os trabalhos neste sentido ainda são incipientes. Gasta-se para retirar o lixo dos rios, para monitorar a qualidade e para adicionar produtos químicos à água, recuperando a potabilidade para o abastecimento público.
Marcelo AlmeidaPoluindoNatália Teodora, que mora na nascente do Belém, não esconde que o próprio esgoto vai para as águas do rio
O rio em piores condições é com certeza o Belém, que já nasce morto e, por ironia, dentro de um cemitério. A pernambucana Natália Teodora, 60 anos, morava numa favela em São Paulo quando foi trazida pelo filho há dois anos para viver às margens da nascente do Belém. Ela represou um pouco da água para criar patos e não esconde que o próprio esgoto vai para as águas do Belém. Embora o monitoramento feito pela prefeitura indique que existe oxigenação do rio em alguns pontos, ele parece morto ao cruzar o Parque São Lourenço, cortar o Centro Cívico e atravessar o Passeio Público. Ao lado da Rodoferroviária e através da Vila Pinto, o Rio Belém continua parecendo morto.
O rio Atuba é um desconhecido mesmo na vizinhança de seu próprio leito. Os moradores das vilas e invasões da região do Cajuru o chamam de valetão. É o caso da dona-de-casa Luzia Cordeiro, que mora ao lado do rio e achava que era apenas esgoto. As crianças vivem presas dentro de casa para não terem contato com a água. Uma vez a filha mais velha caiu dentro do rio e depois ficou muito doente, segundo ela. O vizinho João Penteado mora às margens do Atuba há oito anos, mas também não sabia que se tratava de um rio. Ele critica os moradores das redondezas por jogarem lixo na valeta. Na frente de sua casa, João faz limpezas periódicas para evitar as enchentes que já atingiram até o Projeto Piá e a escola Airton Senna, do outro lado da rua. João tem esperanças de que o rio volte ao curso original, que foi desviado por um aterro e só então passou a correr diante da casa dele.
O rio Passaúna é o mais selvagem, de difícil acesso, e talvez por isso o mais vivo. Mesmo com denúncias de que seja vítima de despejo de mercúrio de minerações, agrotóxicos de lavouras e também esgoto de ocupações irregulares, o Passaúna é o que mais se parece com um rio. Mas o número de pescadores à sua margem também está diminuindo. O vigilante Vicente Rimizowski, 38 anos, costumava pescar no rio Passaúna durante as folgas do trabalho. Mas os peixes começaram a diminuir em quantidade e tamanho e ele desistiu. Agora ele vai até a represa do Parque Passaúna, onde ainda é possível pegar tilápias um pouco maiores.





