Osmani Costa
De Londrina
O nome é uma homenagem dos pioneiros ao simpático animal silvestre que habitava a região de Londrina: Quati. Mas o Ribeirão Quati, hoje, é detentor de um triste título. Ele é disparado o campeão em poluição, entre os oito ribeirões, 71 córregos e dois arroios que cortam o perímetro urbano. Segundo estudos da Autarquia Municipal do Ambiente (AMA) e do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), as águas do Quati têm sofrido sistematicamente, nos últimos anos, com a descarga de agentes poluidores de indústrias, empresas prestadoras de serviços e de ligações clandestinas de esgoto doméstico.
As águas do ribeirão cortam toda a zona norte da cidade, no sentido leste-oeste. A nascente fica no Jardim Leonor, próxima a uma grande indústria de fiação. Na semana passada, um incêndio destruiu grande parte do capim, grama e árvores que protegiam as minas que formam a nascente. Na margem esquerda da nascente, um grande aterro de entulhos já ameaça invadir a várzea e a faixa de proteção permanente.
Ontem à tarde, caminhões e carroças despejavam terra, madeiras velhas, restos de construção e outros tipos de entulho no aterro, que começou a ser feito há cerca de seis anos e já mede aproximadamente 100 metros de comprimento, 30 metros de largura, por 40 de altura. Segundo Eurico Domingos, o caseiro que cuida do aterro, a área pertence ao empresário curitibano João Correia.
No Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e no Ibama não há qualquer denúncia ou pedido de fiscalização sobre a legalidade ou não do aterro. A geógrafa da AMA, Marcia Arantes, conta que o proprietário da área já foi notificado várias vezes e multado duas, para que suspenda a montagem do aterro. O gerente regional do Ibama, José Carlos Machado, afirma que seus técnicos fiscalizarão o local nos próximos dias.
‘‘A poeira e o mau cheiro que saem deste aterro são terríveis, principalmente para mim que sou alérgica. As crianças e toda a vizinhança sofrem muito aqui’’, comenta a dona de casa Laíde Alves, 28 anos, casada, dois filhos.
O Ribeirão Quati nasce com pequeno volume de água e vai descendo pelo fundo de vale esprimido entre as margens, que contam com pouco do que restou da antiga mata ciliar. Até desaguar no Ribeirão Lindóia, já na zona leste, o Quati passa por 23 bairros. Neste percurso, suas águas aumentam de volume e têm piorado em muito a sua qualidade.
Nas suas margens estão instaladas 49 indústrias e 84 empresas prestadoras de serviços – oficinas mecânicas, postos de combustíveis etc. – que, de acordo com Marcia Arantes, podem representar algum risco de poluição. ‘‘O Quati é, sem dúvida, o mais poluído de Londrina. Ele sofre com todo tipo de poluidores. São muitos os pontos de lançamento de esgoto sanitário doméstico in natura nas águas do ribeirão. Há excesso de coliformes fecais e pouco oxigênio na água’’, ressalta a geógrafa.
Na tarde de ontem, os moradores do Jardim Progresso encontraram, novamente, grande quantidade de espuma na água do Quati, que apresenta em muitos pontos todo tipo de lixo doméstico. ‘‘Moro aqui há mais de 30 anos. Cresci nadando e pescando aqui. Hoje, esta água está podre, poluída e mal cheirosa. Esta espuma sempre aparece aí, mata os peixes, e as autoridades não tomam providências’’, reclama o cinegrafista Valter Rodrigues.
Em vários pontos, as margens do Quati sofrem com o processo de erosão por falta de mata ciliar. ‘‘Falta conscientização, educação ambiental. As pessoas jogam lixo, fazem ligações clandestinas de esgoto, sem se darem conta que isto lá embaixo vai prejudicar a água de um ribeirão e poluir um fundo de vale’’, argumenta o presidente da AMA, Rubenz Canizares.
O escritório regional do IAP, que monitora o tratamento de esgotos das indústrias instaladas na cidade, garante que não tem havido problemas com as das margens do Quati nos últimos meses. No seu percurso, o ribeirão recebe águas de um único afluente, o córrego Bom Retiro, que leva consigo os restos líquidos da Estação de Tratamento da Sanepar da Vila Marizia.Considerado o mais poluído de Londrina, ribeirão atravessa 23 bairros e tem 49 indústrias e 84 empresas prestadoras de serviços em suas margens
Fotos Mário CesarNASCENTEVárzea onde nasce o Ribeirão Quati, que em todo o seu trajeto é castigado com descargas de materiais poluentesValter Rodrigues: ‘‘Esta espuma sempre aparece aí e mata os peixes’’

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