O policial militar (PM) Ademir Laite de Araújo acordou ontem às 4h40. Pegou um ônibus perto de sua casa, no conjunto habitacional São Lourenço, na zona sul de Londrina às 5h15. Às 5h40, chegou ao prédio do Instituto de Previdência do Estado (IPE), no centro da Cidade, onde pretendia conseguir uma guia que possibilitasse a consulta de seu filho - Ígor, com 10 anos de idade - com um médico oftalmologista.
‘‘Perdi a viagem, a noite mal dormida e o tempo gasto. Não consegui a guia, porque quando cheguei ao IPE a fila já era grande. E estão dando apenas quatro guias para consulta no oftalmologista. Na fila, já havia quatro interessados nessas guias. Voltei para casa muito revoltado’’, conta Ademir de Araújo.
De acordo com ele, as dificuldades para agendar uma consulta com os médicos do IPE aumentaram muito, nos últimos anos, porque o Governo Estadual ampliou o atendimento do instituto a muitas categorias de funcionários sem investir no quadro profissional.
Ademir de Araújo diz que não conseguiu a guia para a mesma consulta de Ígor - que sofre de miopia, estrabismo e outros problemas visuais - há quatro anos, quando o filho começou a usar óculos. ‘‘Na época, o IPE contava com dois oftalmologistas, e não consegui a guia. Tive que pagar consulta particular. Agora, a situação se agravou porque apenas um oftalmologista está atendendo pelo IPE. Acho absurdo ter que pagar R$ 70,00 por uma consulta particular, sendo que descontam do meu salário R$ 78,00 para o IPE’’, afirma.
O chefe regional do IPE, Marcelo Mendonça (foto), admite que o problema para se conseguir consultas ocorre em alguns setores e lembra que já contou com quatro oftalmologistas alguns anos atrás. ‘‘De um ano para cá, infelizmente estamos com apenas um oftalmologista. Por isso, só oferecemos dez consultas diárias. Como temos que garantir vagas para cerca de 45 mil beneficiários - muitos de outras cidades -, seis consultas são marcadas pelo telefone e quatro pessoalmente na fila.’’
O IPE regional atende atualmente com cerca de 30 médicos. Os setores mais deficientes, com apenas um profissional, são os de cardiologia, dermatologia e oftalmologia. ‘‘Com o enxugamento da máquina do Estado, e a necessidade de se adaptar à lei federal de gastar apenas 60% da arrecadação com a folha de pessoal, as contratações praticamente não estão ocorrendo em nenhum setor do funcionalismo, a não ser nos mais essenciais. Muitos médicos saíram do nosso quadro, por vários motivos, entre os quais a aposentadoria, e não houve a reposição’’, comenta Marcelo Mendonça.
Segundo ele, o problema se agravou a partir de 1992, com a implantação do regime jurídico único, que transformou os celetistas que prestavam serviço para o governo em estatutários. O número de beneficiários do IPE na região de Londrina subiu, na época, de 12 para 45 mil, sem que houvesse a correspondente ampliação na estrutura de atendimento. ‘‘A situação é difícil, mas é a que existe. E precisamos entender as mudanças pelas quais passam o setor público do País, com o enxugamento da máquina estatal’’, afirma Mendonça. Ele ressalta que o IPE cobre integralmente todas as despesas com exames laboratoriais. ‘‘A consulta, que infelizmente está difícil garantirmos para todos, é a parte mais barata de um completo tratamento médico.’’

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